Coluna

Paulo Coelho: de governantes e governados

00:00 · 07.07.2018

Onde passar a noite - O famoso místico Ibrahim Adham entrou certa vez no palácio do governante local. Como era muito conhecido na região, nenhum guarda ousou detê-lo, e conseguiu chegar à presença do soberano.

- Gostaria de passar a noite aqui - disse.

- Mas isso não é um hotel - respondeu o rei.

- Posso perguntar quem era o dono deste palácio antes do senhor?

- Meu pai. Ele está morto.

- E quem era o dono, antes do seu pai?

- Meu avô. Ele também está morto.

- Então este é um lugar onde as pessoas ficam um pouco, e depois vão embora. Não é a mesma coisa que um hotel?

Respeitando a coragem e a sabedoria de Ibrahim Adham , o rei permitiu que ficasse hospedado ali o tempo que quisesse.

A coragem do monge

Um rei chamado Nobushige foi até o mestre Zen Hakuin, e perguntou:

- Por acaso existe o inferno e o paraíso?

O mestre ficou calado. O rei insistiu algumas vezes, até que Hakuin disse:

- Quem é o senhor para vir até aqui perturbar a minha tranquilidade?

A face de Noboshige ficou vermelha de raiva:

- Sou um rei, o senhor de todas estas terras!

- Que rei idiota! Imagine, viajar para tão longe só para fazer uma pergunta estúpida!

Noboshige começou a desembainhar sua espada.

- Ah, então o senhor está armado! - riu o mestre zen. - Pois aposto que esta espada está cega e enferrujada!

- Você verá! - bradou o rei. - Minha fúria é como inferno na terra!

O mestre zen abriu o quimono e mostrou o peito.

- Vamos! Acabe com minha vida! Assim que esta espada tocar o meu coração, estarei no paraíso!

Houve um momento de silêncio. O mestre zen olhou direto para Noboshige:

- Então, respondi sua pergunta? O inferno é perder o controle apesar do poder. O paraíso é manter o controle, apesar do medo.

O viajante silencioso

O governador e sua comitiva estavam em um trem, quando notaram, no mesmo vagão, um senhor mal-vestido, com os olhos fechados. Alguém resolveu afastá-lo dali, mas o governador impediu; aquela criatura serviria para distraí-los durante a viagem.

Provocaram o homem durante todo o trajeto, com gracejos e humilhações. Quando chegaram à estação, porém, viram que muita gente viera receber o estranho: tratava-se de um dos mais conhecidos rabinos da América, e seus seguidores tinham ajudado a eleger o governador.

Imediatamente, este se deu conta do erro. Puxando-o para um canto, pediu:

- Perdoa as nossas brincadeiras e abençoa-nos, rabino.

- Eu posso abençoá-lo, mas não posso perdoá-lo. Naquele trem, eu estava, sem querer, representando todos os homens humildes deste mundo. Para receber o perdão, percorra a terra inteira, e se ajoelhe diante de cada um deles.

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