Paulo Coelho - Caderno 3 - Diário do Nordeste

COLUNA

Paulo Coelho

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26.07.2015

Sobre os reis e seus sábios

O reino deste mundo - Um velho ermitão foi certa vez convidado para ir até a corte do rei mais poderoso daquela época.

- Eu invejo um homem santo, que se contenta com tão pouco - comentou o soberano.

- Eu invejo Vossa Majestade, que se contenta com menos que eu - respondeu o ermitão.

- Como você me diz isto, se todo este país me pertence? - disse o rei, ofendido.

- Justamente por isso. Eu tenho a música das esferas celestes, tenho os rios e as montanhas do mundo inteiro, tenho a lua e o sol, porque tenho Deus na minha alma. Vossa Majestade, porém, tem apenas este reino.

Os ossos do ancestral

Havia um rei da Espanha que se orgulhava muito de seus ancestrais, e que era conhecido por sua crueldade com os mais fracos.

Certa vez, caminhava com sua comitiva por um campo de Aragón, onde - anos antes - havia perdido seu pai em uma batalha, quando encontrou um homem santo remexendo uma enorme pilha de ossos.

- O que você está fazendo aí? - perguntou o rei.

- Honrada seja Vossa Majestade - disse o homem santo.

- Quando soube que o rei da Espanha vinha por aqui, resolvi recolher os ossos de vosso falecido pai para entregar-vos. Entretanto, por mais que procure, não consigo achá-los: eles são iguais aos ossos dos camponeses, dos pobres, dos mendigos e dos escravos.

Chame outro tipo de médico

Um poderoso monarca chamou um santo padre - que todos diziam ter poderes curativos - para ajudá-lo com as dores na coluna.

- Deus nos ajudará - disse o homem santo. - Mas antes vamos entender a razão destas dores. Sugiro que Sua Majestade se confesse agora, pois a confissão faz o homem enfrentar seus problemas, e o liberta de muitas culpas.

Aborrecido por ter que pensar em tantos problemas, o rei disse:

- Não quero falar destes assuntos; preciso de alguém que cure sem fazer perguntas.

O sacerdote saiu e voltou meia-hora depois com outro homem.

- Eu acredito que a palavra pode aliviar a dor, e me ajudar a descobrir o caminho certo para a cura - disse. - Entretanto, o senhor não deseja conversar, e não posso ajudá-lo. Mas eis aqui quem o senhor precisa: meu amigo é veterinário, e não costuma conversar com seus pacientes.

A parte mais perigosa

Um rei mandou reunir um grupo de sábios para decidir qual era a parte mais importante do corpo. O endocrinologista afirmou que eram as glândulas, porque regulavam as funções; o neurologista disse que era o coração, porque sem ele as glândulas não funcionavam. O nutricionista garantiu que era o estômago, porque, sem alimento, o coração não tinha forças para bater.

O mais sábio de todos ouvia tudo em silêncio. Como não chegavam a nenhum acordo, quiseram saber sua opinião.

- Todas estas partes são fundamentais para a vida - disse o mais sábio. - Se faltar uma delas, o corpo morre. Entretanto, a parte mais importante não existe: é o canal imaginário que liga o ouvido a língua.

"Se este canal estiver com problemas, o homem passa a dizer coisas que não ouviu - e ai, não apenas o corpo morre, mas a alma é condenada para sempre".

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