Paulo Coelho - Caderno 3 - Diário do Nordeste

COLUNA

Paulo Coelho

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25.01.2015

Fragmentos de um diário inexistente - VIII

Pedindo esmolas - Faz parte do treinamento dos monges zen-budistas uma prática conhecida como takuhatsu - a peregrinação para mendigar. Além de ajudar os mosteiros que vivem de doações e forçar o discípulo a ser humilde, esta prática tem ainda um outro sentido: purificar a cidade onde mora.

Isto porque - segundo a filosofia Zen - o doador, o pedinte, e a própria esmola fazem parte de uma importante cadeia de equilíbrio.

Aquele que pede, assim o faz porque está precisando; mas aquele que dá, age desta maneira porque também está precisando.

A esmola serve como a ligação entre duas necessidades, e o ambiente da cidade melhora, já que todos puderam realizar ações que precisavam ter acontecido.

Moisés divide as águas

"Às vezes a gente se acostuma com o que vê nos filmes, e termina esquecendo a verdadeira história", diz um amigo, enquanto olhamos juntos o porto de Miami. "Lembra-se dos 'Dez Mandamentos?'".

Claro que me lembro. Moisés - Charlton Heston - em determinado momento levanta seu bastão, as águas se dividem, e o povo hebreu atravessa a grande água.

"Na Bíblia é diferente". Comenta meu amigo. "Ali, Deus ordena a Moisés: 'diz aos filhos de Israel que marchem'. E só depois que começam a andar é que Moisés levanta o bastão, e o Mar Vermelho se abre".

"Só a coragem no caminho faz com que o caminho se manifeste".

Agindo no impulso

O padre Zeca, da Igreja da Ressurreição em Copacabana, conta que estava num ônibus, e de repente escutou uma voz dizendo que ele devia levantar-se e pregar a palavra de Cristo ali mesmo.

Zeca começou a conversar com a voz: "vão me achar ridículo, isto não é lugar para sermão", disse. Mas algo dentro dele insistia que era preciso falar. "Sou tímido, por favor não me peça isto", implorou.

O impulso interior persistia.

Então ele lembrou-se de sua promessa - abandonar-se a todos os desígnios de Cristo. Levantou - morrendo de vergonha - e começou a falar do Evangelho. Todos escutaram em silêncio. Ele olhava cada passageiro, e eram raros os que desviavam os olhos. Disse tudo que sentia, terminou seu sermão, e sentou-se de novo.

Até hoje não sabe que tarefa cumpriu naquele momento. Mas tem absoluta certeza de que cumpriu uma tarefa.

Preciso viver minhas graças

Preciso viver todas as graças que Deus me deu hoje. A graça não pode ser economizada. Não existe um banco onde depositamos as graças recebidas, para utilizá-las de acordo com nossa vontade. Se eu não usufruir destas bênçãos, vou perdê-las irremediavelmente.

Deus sabe que somos artistas da vida. Um dia nos dá formão para esculturas, outro dia pincéis e tela, outro dia nos dá uma pena para escrever. Mas jamais conseguiremos usar formão em telas, ou penas em esculturas. A cada dia, o seu milagre. Preciso aceitar as bênçãos de hoje, para criar o que tenho; se fizer isso com desapego e sem culpa, amanhã receberei mais.

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