Paulo Coelho - Caderno 3 - Diário do Nordeste

COLUNA

Paulo Coelho

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26.10.2014

 

Duas histórias reais na porta de uma igreja

 

 

Encontro na 5a. Avenida

Eu estava saindo da igreja de Saint Patrick, em Nova York, quando um rapaz brasileiro se aproximou.

– Que bom encontrá-lo aqui – disse, sorrindo – Precisava muito dizer alguma coisa. 

Eu também gostei do encontro com um desconhecido. Convidei-o para tomar um café, contei a chatice que foi minha viagem a Denver, sugeri que fosse até o Harlem no domingo, para assistir um serviço religioso.

O rapaz, que devia ter vinte e poucos anos, me escutava sem dizer nada. 

Eu continuei a falar. Disse que acabara de ler um livro de ficção sobre um grupo terrorista que toma de assalto a igreja de Saint Patrick, e o escritor descrevia tão bem o cenário que me chamara a atenção sobre muitas coisas que jamais havia visto em minhas visitas ao local. Assim, tomara a decisão de passar por ali aquela manhã. 

Ficamos quase uma hora juntos, tomamos dois cafés, e eu conduzi a conversa o tempo todo. No final, nos despedimos, e desejei uma excelente viagem ao rapaz. 

– Obrigado – disse ele, afastando-se. 

Foi quando eu notei que seus olhos estavam tristes; alguma coisa tinha dado errada, e eu não sabia exatamente o que. 

Só depois de caminhar algumas quadras foi que me dei conta: o rapaz se aproximara dizendo que precisava muito falar comigo. Durante o tempo que passamos juntos, eu assumira o controle da situação. 

Em nenhum momento, perguntei o que ele queria; na tentativa de ser simpático, preenchi todos os espaços, não permiti um momento de silêncio, onde o rapaz finalmente pudesse transformar um monólogo em diálogo.

Talvez ele tivesse algo muito importante para compartilhar comigo. Talvez, se naquele momento eu estivesse realmente aberto para a vida, eu também teria algo para entregar ao rapaz. Talvez, tanto minha vida como a dele, tivesse mudado radicalmente depois daquele encontro. 

Nunca vou saber, e não vou ficar me torturando com o fato de que não soube aproveitar um momento mágico do dia; erros acontecem. 

Mas, desde então procuro manter viva na memória, a cena da minha despedida, e os olhos tristes do rapaz; quando eu não soube receber o que me era destinado, tampouco consegui dar aquilo que eu queria, por mais que me esforçasse. 

Encontro no Posto Seis

O padre José Roberto, da Igreja da Ressurreição no Rio de Janeiro, saía certa manhã bem cedo, quando seu carro foi cercado por três adolescentes. 

– Passamos a noite em claro, padre – disse um deles, em tom desafiador. – Pode imaginar onde estivemos?

Como qualquer ser humano normal, José Roberto preferiu ficar quieto. Imaginou o que significa uma noite em claro naquela idade, sentiu medo pelos riscos que os garotos devem ter corrido, pensou na preocupação dos pais.

O adolescente que iniciara a conversa, terminou por responder à própria pergunta:

– Ficamos na Igreja de N. Sra. Copacabana, adorando a Virgem. Saímos de lá tão eufóricos que viemos caminhando até aqui (aproximadamente três quilômetros), cantando alto, rindo, falando com todo mundo. 

Pelo menos uma das pessoas nos perguntou: “como é que vocês, tão jovens, não tem vergonha de estarem bêbados a esta hora da manhã?”

O padre José Roberto deu partida no seu carro, e seguiu em direção ao seu compromisso. No caminho, se perguntou muitas vezes: “ Eu também me deixei levar pelas aparências, e cometi uma injustiça em meu coração. Será que algum ser humano vai finalmente entender a frase de Jesus, ‘vocês serão julgados com a mesma medida com que julgam seu próximo?’” 

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