Paulo Coelho - Caderno 3 - Diário do Nordeste

COLUNA

Paulo Coelho

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17.08.2014

Quando Ketu completou 12 anos de idade, foi mandado para um mestre, com o qual estudou até completar 24. Ao terminar seu aprendizado, voltou para casa cheio de orgulho.

Disse-lhe o pai:

- Como podemos conhecer aquilo que não vemos? Como podemos saber que Deus, o Todo Poderoso, está em toda parte?

O rapaz começou a recitar as escrituras sagradas, mas o pai o interrompeu:

- Isso é muito complicado; não existe uma maneira mais simples de aprendermos sobre a existência de Deus?

- Não que eu saiba, meu pai. Hoje em dia sou um homem culto, e preciso desta cultura para explicar os mistérios da sabedoria divina.

- Perdi meu tempo e meu dinheiro enviando meu filho ao mosteiro - reclamou o pai.

E pegando Ketu pelas mãos, levou-o a cozinha. Ali, encheu uma bacia com água, e misturou um pouco de sal. Depois, saíram para passear na cidade.

Quando voltaram para casa, o pai pediu a Ketu:

- Traz o sal que coloquei na bacia.

Ketu procurou o sal, mas não o encontrou, pois já se havia dissolvido na água.

- Então não vê mais o sal? - perguntou o pai.

- Não. O sal está invisível.

- Prova, então, um pouco da água da superfície da bacia. Como está ela?

- Salgada.

- Prova um pouco da água do meio: como está?

- Tão salgada como a da superfície.

- Agora prova a água do fundo da bacia, e me diz qual o seu gosto.

Ketu provou, e o gosto era o mesmo que experimentara antes.

- Você estudou muitos anos, e não consegue explicar com simplicidade como o Deus Invisível está em toda parte - disse o pai. - Usando uma bacia de água, e chamando de "sal" a Deus, eu poderia fazer qualquer camponês entender isso. Por favor, meu filho, esqueça a sabedoria que nos afasta dos homens, e torne a procurar a Inspiração que nos aproxima.

O aluno ladrão

Um discípulo do mestre zen Bankei, foi pego roubando durante a aula. Todos os outros pediram a expulsão dele, mas Bankei resolveu não fazer nada.

Dias depois o aluno voltou a roubar, e o mestre continuou calado. Inconformados, os outros discípulos exigiram que o ladrão fosse punido, já que o mau exemplo não podia continuar.

- Como vocês são sábios! - disse Bankei. - Aprenderam a distinguir o certo do errado, e podem estudar em qualquer outro lugar. Mas este pobre irmão não sabe o que é certo ou errado, e só tem a mim para ensina-lo.

Os discípulos nunca mais duvidaram da sabedoria e generosidade de Bankei, e o ladrão nunca mais tornou a roubar.

Que valha a pena

O jovem contemplava o oceano no convés de um navio cargueiro, quando uma onda inesperada o atirou no mar. Depois de muito esforço, um marinheiro conseguiu resgatá-lo.

- Obrigado por salvar minha vida - disse o rapaz.

- Tudo bem - respondeu o marinheiro. - Mas procure vivê-la como algo que valeu a pena salvar.

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