Coluna Paulo Coelho

00:00 · 31.10.2013
Quatro histórias sufi

A mulher perfeita: Nasrudin conversava com um amigo.

- Então, mullah, nunca pensaste em casamento?

- Já pensei - respondeu Nasrudin. - Em minha juventude, resolvi conhecer a mulher perfeita. Atravessei o deserto, cheguei em Damasco, e conheci uma mulher espiritualizada e linda; mas ela não sabia nada nas coisas do mundo.

- Continuei a viagem, e fui a Isfahan; lá encontrei uma mulher que conhecia o reino da matéria e do espírito, mas não era bonita. Então resolvi ir até o Cairo, onde jantei na casa de uma moça bonita, religiosa, e conhecedora da realidade material.

- E por que não casaste com ela?

- Ah, meu companheiro! Infelizmente ela também procurava um homem perfeito.

O pato e a gata

- Como o senhor entrou na vida espiritual? - perguntou um dos discípulos ao mestre sufi Shams Tabrizi.

- Minha mãe dizia que eu não era bastante louco para ser internado num hospício, nem bastante santo para entrar num mosteiro - respondeu Tabrizi. - Então resolvi dedicar-me ao sofismo, onde aprendemos através da meditação livre.

- E como explicou isso a sua mãe?

- Com a seguinte fábula: alguém colocou um patinho para que uma gata tomasse conta. Ele seguia sua mãe adotiva por toda parte - até que, um dia, os dois foram parar diante de um lago. Imediatamente, o patinho entrou na água, enquanto a gata gritava da margem: "Saia daí! Você vai morrer afogado!"

"E o patinho respondeu:" não, mamãe, descobri o que me faz bem, e sei que estou no meu ambiente. Vou continuar aqui, mesmo que a senhora não saiba o que significa um lago".

O peixe que salvou uma vida

Nasrudin passa diante de uma gruta, vê um yogue meditando, e pergunta o que ele estava buscando.

- Contemplo os animais, e aprendi deles muitas lições que podem transformar a vida de um homem - diz o yogue.

- Pois um peixe já salvou minha vida - responde Nasrudin. - Se você me ensinar tudo o que sabe, eu lhe conto como foi.

O yogue espanta-se: só um santo pode ter a vida salva por um peixe. E resolve ensinar tudo que sabe.

Quando termina, diz a Nasrudin:

- Agora que ensinei tudo, ficaria orgulhoso em saber como um peixe salvou sua vida.

- É simples - responde Nasrudin. - Eu estava quase morrendo de fome quando o pesquei, e graças a ele pude sobreviver três dias.

A reflexão sufi

Abu Muhammad al-Jurayry costumava dizer:

"A religião possui dez tesouros, que nos enriquecem. São cinco interiores, e cinco exteriores; todos aqueles que seguem o caminho espiritual devem estar conscientes disto."

"Eis os tesouros interiores: capacidade de ser verdadeiro, despreocupação com os nossos bens, humildade na aparência, equilíbrio para evitar dificuldades com os outros, e força para reagir."

"Eis os tesouros exteriores: descobrir um Amor supremo, despertar o desejo de estar junto a este Amor, ter inteligência para ver as próprias faltas, estar consciente de tudo que acontece na vida, e ser grato pelas bênçãos recebidas".

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