Isabel Lustosa - Caderno 3 - Diário do Nordeste

COLUNA

Isabel Lustosa

caderno3@diariodonordeste.com.br

29.03.2014

O fabuloso Zeca Pato

Recentemente revi um episódio da ótima série “Além da Imaginação”, que passava na TV nos anos 1960, cujo protagonista era o já então veterano ator Andy Devine no papel (magnificamente interpretado) de Frisby, um típico caipira do interior dos EUA. Ele diverte seus amigos com as mais fantásticas histórias, todas mentirosas, contando, entre outras coisas, que fora o grande estrategista, nomeado por Einsenhower, responsável pela coordenação do desembarque das tropas americanas na Normandia durante a Segunda Guerra; que teria desenvolvido para Henry Ford o primeiro automóvel com motor traseiro; que era grande especialista em computadores, foguetes e que tinha feito pesquisas avançadas com propulsores líquidos. Também teria estudado em 38 universidades na primeira das quais ingressara com 13 anos.

Os amigos morriam de rir com as histórias de Frisby mas ele não se encabulava, ria também e seguia em frente. A cada comentário que alguém fazia sobre um desses inventos ele contava sua história sempre completando que graças, por exemplo, ao seu trabalho sobre propulsores líquidos, ele passara a ser chamado de “Frisby-propulsor líquido”.

Um belo dia, depois de um sequência de histórias fabulosas, da qual os amigos se despediram às gargalhadas, Frisby, se preparava para fechar as portas de seu pequeno armazém, quando extra-terrestres o sequestraram e o levaram para dentro de um disco voador que estava estacionado em uma mata perto dali. Os alienígenas vinham escutando suas conversas e acreditavam que ele era o mais sábio dos seres humanos e que poderia ensinar a ele tudo o que a humanidade tinha produzido até aquele dia.

Quando lhe disseram isto, Frisby confessou que suas historias eram todas inventadas, não passavam de mentiras e que ele era apenas um “menino do interior com uma boca grande”. Os extra-terrestres não entenderam, eles acreditavam em tudo que ouviam pois em sua cultura não havia mentira.

História semelhante aconteceu com um brasileiro no começo do século XX. Não que ele tenha sido sequestrado por alienígenas. Ele foi aprisionado por ingleses que, tal como os extra-terrestres do Frisby, acreditaram no que o boquirroto, no curso de uma viagem de navio entre Amsterdam e Londres contou para outro passageiro.

Foi durante a Primeira Guerra Mundial, o brasileiro se chamava José do Patrocínio Filho (1885/1929) e ocupara até então um posto diplomático na Holanda. Filho do grande abolicionista, o negro mais importante do Brasil do final do século XIX, Zeca Pato era um mulato chique, meio playboy, que crescera frequentando e sendo bem aceito pela elite carioca.

Segundo seu biógrafo, Raimundo Magalhães Junior, desde cedo o menino revelou uma irresistível tendência a mitomania. Inventava as histórias mais absurdas sobre ele mesmo, sempre envolvendo situações de grandeza.

Era também um moço de talento que deu boas contribuições ao teatro de revista e ao nosso incipiente cinema. Por isso talvez, apesar da fama de mentiroso, em um desses arranjos bem brasileiros, o Itamarati atendeu aos seus rogos para obter um posto que lhe possibilitasse passar um tempo na Europa.

Quando a guerra começou ele estava na Holanda e recebeu ordens para voltar ao Brasil. Foi no caminho de volta que Zeca Pato, seguindo a velha tendência, contou a um companheiro de viagem as mais fantásticas aventuras sobre o caso ardente que tivera com Mata Hari.

O interlocutor era um agente da policia inglesa que mandou uma mensagem para Londres informando sobre o perigoso viajante e, quando o navio chegou no porto Zeca Pato foi preso como agente da espionagem alemã. Segundo Magalhães Junior, ele esteve primeiro em Reading, sendo depois transferido para a Brixton Prison; em seguida para a Scotland Yard, de onde passou para Ishington, de onde retornou a Reading, depois para o Advisory Committe, voltando a novamente Reading e passando novamente a Brixton.

Enquanto o filho fazia esse tour pelas prisões inglesas, sua mãe, desesperada, movia céus e terras no Brasil para libertá-lo. Viajou mesmo até Guaratinguetá para pedir a proteção do presidente eleito, Rodrigues Alves, já acometido pela gripe espanhola que o mataria antes de assumir o mandato. Foram feitas muitas gestões diplomáticas para libertar o brasileiro das garras daqueles ingleses que, tal como os alienígenas do Frisby, acreditavam em tudo que ouviam.

Magalhães Junior comenta que o governo brasileiro tinha dificuldade de explicar ao governo inglês que o nosso Zeca Pato, era apenas “um menino de boca grande”. Mas que, apesar disto, fora nomeado para um posto diplomático no exterior, pois entre nós esses postos eram dados aos filhos da elite como um tipo de presente para que o sujeito pudesse curtir um pouco a vida na Europa.

As gestões funcionaram, Zeca Pato voltou, foi recebido como um verdadeiro herói de guerra e não fez por menos. Não decepcionou quem já o conhecia bem, publicando uma série de artigos na “Gazeta de Noticias” sobre sua aventura europeia, naturalmente ali incluída a ligação com Mata Hari e outras invenções de sua fértil imaginação.
O relato foi incluído em um livro, “A sinistra aventura” que está bem resumido em http://ilusaodasemelhanca.blogspot.fr/2007/03/jose-do-patrocinio-filho.html.

Ali fiquei sabendo que o autor da capa, Di Cavalcanti, que no começo da vida foi ilustrador e caricaturista, era primo do Zeca Pato. Mas, sem dúvida, quem quiser conhecer a história completa desse personagem deve ir correndo procurar em algum sebo o livro de Raimundo Magalhães Junior, “O fabuloso Patrocínio Filho”.

Como quase tudo que Magalhães Junior produziu é obra que se lê com gosto, tanto pela ótima e bem contada história, quanto pelo delicioso quadro do Rio de Janeiro boêmio da nossa Belle Epoque.

Comente essa matéria


Editora Verdes Mares Ltda.

Praça da Imprensa, S/N. Bairro: Dionísio Torres

Fone: (85) 3266.9999