Matéria-1121329

01:12 · 31.03.2012
Chico e Millôr

Deve haver algum sentido na partida quase simultânea de Millôr Fernandes e Chico Anysio. Algo talvez relacionado ao senso de humor da "indesejada das gentes" que, de alguma forma, quis rir por último.

Foram ambos, certamente os maiores em sua arte, pois o humor literário e a comédia são formas bem diferentes de expressão.

Não sei se era Chico quem criava a maior parte de seus textos. Mas, certamente, era na interpretação deles, em sua galeria imensa de personagens que seu talento de ator versátil, aliado à sua capacidade inata de fazer rir, se realizava plenamente.

Às vezes, o texto nem era tão bom, mas a gente saboreava o prazer de ver um ator fenomenal fazendo um tipo tão natural que até parecia com algum velho conhecido da vizinhança. Assim a gente se acostumou a ver toda semana, na telinha: o pai de santo baiano, amigo dos famosos; o Bozó, funcionário da Globo; o Alberto Roberto, ator canastrão; Beto Carneiro, o vampiro brasileiro; o Coronel Limoeiro e o político corrupto Justo Veríssimo; o Haroldo, a bicha de língua presa que resolveu ser hétero e é que sempre convidada a voltar para o antigo reduto por outra, a Paulete; o Silva, nordestino que exclamava, com sotaque bem carregado: "Têrcero Mundo me dana!".

No entanto, não se deve esquecer que há muito Chico Anysio não tinha um programa seu. E não se pode culpar a Rede Globo por isto. Na verdade, seu programa, graças ao prestígio de Chico junto a Roberto Marinho, até se prolongou para muito além do tempo em que fazia sucesso. Me parece que esse é um pouco o destino dos comediantes. Chega um tempo que o público não consegue achar mais graça neles. Ou porque o público já não é mais o mesmo, ou porque cansou de repetir os bordões, ou porque o próprio artista se tornou sentimental.

Com Chico Anysio aconteceu um pouco de tudo isto. Lembro que na última fase de seu programa ele encerrava com um tipo de profeta falando frases que nada tinham de humorístico. Eram mensagens morais que precisavam ser decifradas e que, a meu ver tiravam a graça do que tinha sido visto antes.

Nada disto diminui Chico Anysio e, agora que ele se foi, a gente fica com uma pena danada de que não tenham lhe dado mais valor nos últimos anos de sua vida. Alguém com o enorme talento e a versatilidade de Chico Anysio poderia facilmente ter migrado do programa de humor para as telenovelas. Excelente ator dramátoico que só recentemente veio a participar de uma delas, merecia ter sido lembrado antes. Acredito que a televisão brasileira teria ganho registros tão memoráveis quanto os que deixou um Paulo Gracindo, por exemplo.

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Encontrei Millôr duas vezes. Uma para pegar originais dele que eu queria incluir em uma exposição sobre os presidentes da República que eu organizava no BNDES e a outra para devolver os desenhos.

Conhecendo a sua verrina manifesta nas charges diárias do JB em que demolia durante semanas seus alvos preferidos, temia encontrar alguém de temperamento difícil. Mas, ao contrário, o Millôr que conheci era amabilíssimo. Conversamos longamente sobre os mais variados assuntos. E, aproveitando a boa disposição em que ele estava perguntei sobre alguns de seus velhos amigos. Sobre um deles, me disse: "Fulano é assim como aquele irmão mais novo que você tem. Você deixa a carteira de dinheiro na mesa dando sopa, ele vai e leva. Você tem uma filha mocinha, menor de idade, ele vai e transa..". Era um descrição que casava bem com a imagem do dito fulano. E não havia ninguém melhor para fazê-la do que Millôr que o conhecia há tantos anos.

Ele foi, certamente, a maior inteligência do humor brasileiro de todos os tempos. Suas pequenas construções frasísticas resumiam da forma mais sintética possível uma concepção filosófica sobre a natureza humana. Mas esta concepção não era cética como a expressa, por exemplo, no humor machadiano. Era tão pessimista como a de Jonathan Swift.

Aliás, Millôr tinha com Swift também a semelhança no humor ferino e demolidor, que não perdoava seu alvo, vasculhando e denunciando seus defeitos, suas fraquezas, suas vilanias. Ser escolhido como tema de suas charges era se ver massacrado com tanta persistência que, tal como acontece muitas vezes, em situações assim, sua vítima podia até vir a obter a simpatia do público leitor. Millôr era engraçado até quando era perverso. Ou, aliás, era engraçado e se conservou assim até o final até porque continuou perverso em seu humor.

No entanto foi o artista inspirado também de tiradas de humor delicadas como na "Poesia matemática" e na crítica inteligente que fez à substituição dos hábitos de leitura de livros impressos sobre o papel pela leitura dos mesmos nas telas dos computadores. Em texto que continua atual (tão atual que chegou a ser plagiado em vídeo em espanhol hoje popular na internet), intitulado "Um novo e revolucionário conceito de tecnologia de informação" ele descreve o que chama de "Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas", cuja sigla é: L.I.V.R.O."

Mas, geniais mesmo foram suas máximas, das quais seleciono alguns para fechar essa coluna em que me despeço de dois dos meus ídolos da adolescência e da juventude: Chico Anysio e Millôr Fernandes.

Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem./ Ser pobre não é crime mas ajuda muito a chegar lá./ Já que não conseguimos aumentar a grita dos descontentes, precisamos pelo menos diminuir o sorriso dos satisfeitos./ O crime não compensa. Mas de que é que vivem os juízes do Supremo Tribunal?/ Antigamente os animais falavam. Hoje escrevem./ Todo dia leio os avisos fúnebres dos jornais; às vezes a gente tem surpresas agradabilíssimas./ Feliz é o que você vai perceber que era algum tempo depois.

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