Matéria-1115899

01:30 · 17.03.2012
É tudo verdade

Tive na faculdade um colega, um pouco mais novo que eu, que, segundo nos contava, já tinha sido casado, divorciara-se e tinha um filho pequeno. Inteligentíssimo, engraçado, de uma cultura assombrosa, com talento para a caricatura, tanto no desenho quanto nas imitações que fazia, nosso amigo contava histórias divertidíssimas de sua relação com a ex-mulher que, segundo ele, o detestava. Em compensação, ele e o atual marido dela, um sujeito do Maranhão, creio que funcionário do Banco do Brasil, se davam super bem. Sempre que meu colega ia pegar o filho na casa da ex-mulher e lá estava o atual, este o convidava para tomar uma cerveja. Ele aceitava e os dois ficavam um tempão lá, conversando, às gargalhadas, para desgosto da megera.

Mas a coisa que o meu colega mais gostava, sendo ele o único entre nós que já era pai, era de trocar impressões sobre métodos educativos com outra colega que tinha uma filhinha da mesma idade do filho dele. Creio que na escola do garoto o método adotado era o Montessori que acho, meu amigo não gostava. Lembro que uma vez, essa colega tomou um susto, porque se distraíra e achou que a filha tinha se debruçado sobre o balcão da varanda. Meu colega lhe disse, com o ar de ter vivido muitas experiências assim: quantas vezes nossos filhos vivem situações de perigo que a gente nem desconfia.

Ele era filho único e depois da separação voltara a morava com os pais. Com isto, seu filho passava muito tempo com os avós, aos quais seria muito afeiçoado. Lembro que meu amigo achava até que o pai dele gostava mais do neto do que dele. Talvez porque fosse o tipo do sujeito muito inteligente, divertido, mas pouco dado a valentias. Ou ainda porque fizesse a mais engraçada imitação da Dalva de Oliveira que eu já ouvi. Cantava, tremendo o beiço: "Bahiiia, Bahiiiiiiiiiia, Bahiiia, Bahiiiiiiia".

Depois de umas tantas namoradas, meu amigo finalmente conheceu uma moça de São Paulo com quem resolveu se casar. O casamento seria no Rio, onde o casal passaria a viver. A moça veio finalmente conhecer os sogros. No dia em que os visitou, estranhou não ver nenhuma foto do garoto que era querido pelos avós, em canto nenhum da casa. Ia mesmo perguntar aos futuros sogros, mas o noivo a deteve fazendo-lhe um sinal.

Depois, não sei como ele lhe disse, mas ela ouviu, perplexa, que tudo aquilo que ele nos contara, durante os quatro anos da faculdade e mais uns outros tantos: filho, ex-mulher, atual marido da ex-mulher, métodos de ensino da escola do filho, enfim, toda uma vida da qual seus amigos mais chegados tinham partilhado as alegrias e as desventuras, tudo era invenção.

Quando eu soube fiquei bem desconcertada. Não pela mentira em si, mas pela sua absoluta falta de propósito. Para que servia tudo aquilo? Para o sujeito se valorizar? Mas que valorização isto lhe dava? O fato de ser pai tão jovem? Minha colega era mãe jovem também e isto não fazia nenhuma diferença a não ser quando a filhinha dela estava presente e a gente se encantava com as graças dela.

A capacidade de mentir com naturalidade é um mecanismo que me deixa sempre intrigada. Dizem que Heitor Villa-Lobos era um mitômano, capaz de criar em torno de si lendas sobre viagens reais ou imaginárias que se associaram definitivamente à sua biografia. Outro que inventava coisas até impossíveis de lhe terem acontecido era o jornalista João Saldanha. Dizia ter assistido a todas as Copas do Mundo, coberto a guerra da Coeéia, o desembarque das tropas aliadas na Normandia, durante a 2ª Guerra Mundial, ou a Grande Marcha de Mao Tse-Tung. Acontecimentos que, ou não teria idade ou a possibilidade de ter presenciado, porque sendo figura pública, todo o mundo sabia que, naquela data, ele estava no Brasil.

Há poucos anos vi um filme sobre um jovem jornalista americano que tivera ascensão meteórica graças a uma sucessão de artigos sensacionais. Seus artigos, no entanto, eram todos produtos de sua prodigiosa imaginação. Nas reuniões de pauta, a equipe se deslumbrava com sua narrativa na qual fontes, lugares e datas era citados com precisão. Até mesmo durante o processo que culminou com seu desmascaramento, ele sustentou sua mentira até o fim, mostrando inclusive as anotações minuciosas da sua caderneta com as informações que embasaram os 27 artigos totalmente forjados que publicara na revista.

Mentir para se valorizar, dizer que é rico, importante, fez isto ou aquilo de notável é uma coisa. A mentira do meu colega era apenas uma fantasia tipo amigo invisível, não servia para nada a não ser para dar um pouco mais de graça à sua vida de filho único de pais austeros. Talvez possa ser comparada às narrativas que vejo alguns filhos fazerem sobre os feitos dos pais e que sabemos são completamente fictícios. É que o pai, na falta de melhor, construíra para os filhos uma biografia feita de feitos ou de sofrimentos que nunca viveu realmente. Para o filho, é importante acreditar e conservar essa lenda. Ela serve para suportar os defeitos do pai, quando o pai foi ausente ou o maltratou e também para adoçar as memórias mais amargas da infância. Alguns desses narradores de ficções auto-biográficas se empolgam tanto com sua construção que passam até a crer nela, contando-a mesmo na frente de pessoas que sabem que aquilo não aconteceu.

Em "Lembranças da revolução de 1848", Tocqueville define de forma magistral esse espírito ao descrever o Ministro da Instrução de Luís Bonaparte. Este, segundo Tocqueville, conseguia misturar momentaneamente em sua própria crença o verdadeiro e o falso antes de servir a mistura ao espírito dos outros _ único segredo capaz de dar as vantagens da sinceridade à mentira (...).

De fato, para quem mente assim, aos poucos, fica parecendo mesmo que foi tudo verdade.

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