O sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 20.03.2017

Na coluna de hoje destaco: cupuaçu, fruta típica da Amazônia, de cuja amêndoa se tenta fazer cacau; curador, diferente do rezador e do curandeiro; curimatã; curió; curisco; curral e curumim.

Amanhã essa coluna estará completando 12 anos de circulação. De 2007 a 2013 ela foi produzida em Roma, Itália.

Cupuaçu s. M. Do tupi ku'pu = cupu + ia'su = grande. O que muitos não sabem é que existe o cupu, um fruto semelhante ao cacau. É o fruto do cupuaçuzeiro, nativo da Amazônia. A primeira notícia desse nome é do Padre Aires de Casal em sua Coreografia Brasílica (1817). São apreciados os bombons de cupuaçu. Uma fruta aparentada com o cupuaçu é o saboroso bacuri. A amêndoa do cupuaçu é semelhante à do cacau, por isso, existe a tentativa de se fazer cacau de cupuaçu. Eu não sei o resultado dessa experiência.

Curador s. M. Esse termo deve ser entendido como "curador de rastro", para não ser confundido com "curandeiro" e "rezador". Para alguns é crença, para outros - na minha região - é fato comprovado. No sertão os curadores são pessoas que têm o poder de curar bicheira de animais, como bodes e ovelhas, usando força mental e fórmulas secretas que não são propriamente orações. É uma prática antiquíssima, que veio do velho mundo. O processo usa ensalmos ou formas "ensálmicas". Eu ainda conheci curadores na minha região. Uma fórmula usada por eles dizia: "Mal que comeis / a Deus não louvais! / E nessa bicheira / não comerás mais! / Hás de ir caindo: / De dez em dez / de nove em nove / de oito em oito / de sete em sete /de seis em seis /de cinco em cinco /de quatro em quatro / de três em três /; de dois em dois /de um em um! / Não ficará nenhum! / Ela há de ficar limpa e sã / Como limpas e sãs ficaram /as cinco chagas de nosso Senhor Jesus Cristo". O nosso Gustavo Barroso fala do curador em Terra de Sol.

Curandeiro s. M. É a pessoa que, por forte convicção, exerce a atividade de tratar de doenças por meio de meizinhas, ervas, raízes e garrafadas. A diferença do curador é que ele não recorre a fórmulas secretas, mas apenas às suas meizinhas. É claro que um curandeiro pode também apelar para a charlatanice na sua prática iludindo a boa fé e prometendo o que ele não é capaz de fazer. O curandeiro é uma espécie de clínico geral e tem forte poder sobre pessoas influenciáveis, que não são poucas no sertão.

Curimatã s. F. Do tupi kurima'ta. Nome de diversos peixes de água doce, da família dos caracídeos. O tempo nasalizou a sílaba, sendo raro ouvir-se curimatá. Na minha região, eu só ouvi "curimatã". O termo aparece pela primeira vez em Antonil, Diálogo das Grandezas do Brasil (1618). O Pe. Manoel Aires de Casal cita a curimatã em Coreografia Brasílica (1817), usando a grafia "curimatans" (com o som nasal). Vários outros autores referem-se à curimatã: Afonso Arinos, Domingos Olímpio, José Lins do Rego e Guimarães Rosa, este, em duas obras: Sagarana e Grande Sertão: Veredas.

Curió s. M. De origem desconhecida. Há dúvida se vem do tupi. É um pássaro da família dos fringilídeos. A notícia mais antiga sobre essa ave parece ser a do Peregrino da América. O curió é pequeno, tem os olhos bastante arredondados, o bico grosso e curto; sua cauda é extensa, se comparada ao corpo. Tem um canto mavioso e faz um trinado semelhante a um falsete. Joaquim Nabuco cita-o em Minha Formação (1900); Mário de Andrade, em Macunaíma (1928); Graça Aranha, em Viagem Maravilhosa (1929).

Curisco s. M. Do latim coruscus = curisco. No latim há o verbo coruscare = que em português é "entrechocar", como faz o porco fuçando a terra ou objetos. O verbo coruscare vem do grego keratízô = bater com a cabeça e/ou com os chifres como fazem os animais chifrudos. No sertão tem dois sentidos: a) raio, faísca elétrica; b) pedra de corisco ou machado lítico, que os nossos indígenas conheciam e usavam. Essa pedra surge na terra em diversos tamanhos e formas. No sertão acredita-se que ela aparece sempre onde caem raios, por isso, ela é conhecida como "pedra de raio". Eu tenho uma dessas, que foi um presente de meu avô: Luis Bezerra de Menezes Lima.

Curral s. M. Do latim popular currale = curral, a partir do verbo latino currere = correr. O curral no sertão é um cercado, próximo à casa, onde ficam as vacas leiteiras, para a ordenha pela manhã. Às vezes, o curral tem repartições para os bezerros e para o resto do gado, por questão de comodidade e de praticidade, facilitando a ordenha. Na zona de praia chama-se curral, o cercado feito de varas finas, construído perto da costa. Ele tem três compartimentos adrede dispostos, para a captura do peixe.

Curuba s. F. Vários autores trazem essa palavra como sendo de origem tupi com o significado de bolota, bolha. Não há contestações quanto a essa origem. A curuba é uma espécie de sarna purulenta e bastante incômoda. É considerada contagiosa. Uma de suas causas é a falta de assepsia.

Curumim s. F. Do tupi kunu'mi = menino, moleque, rapaz novo. Termo conhecido desde 1559, através de cartas dos padres Jesuítas, reunidas por Serafim Leite. Mais tarde, em 1585, Fernão Cardim cita o termo. Em seguida, ele aparece em muitos autores: Frei Vicente de Salvador, Gregório de Matos, José de Alencar; Inglês de Sousa, Raul Pompeia, Mário de Andrade, Gastão Cruls, Graça Aranha, Graciliano Ramos...

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