Coluna

O sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 16.01.2017

Na coluna de hoje indico: casa-grande; catanduva; catapora; catimba; catimbó; catinga; catingueira; catita; catolé; catraia; catrevage; catucar; cauim e cavaco.

Casa-grande s, f, Expressão comum no tempo da Colônia e do Império, para indicar casa senhorial do dono do engenho ou da fazenda. A expressão estendeu-se, pois a casa de meu avô materno era conhecida como "a casa-grande", mesmo se ele não era um grande proprietário e nem mesmo tinha empregados.

Catanduva s. F. Do tupi kaatan'tiua = mato rasteiro e espinhoso que nasce em terreno sáfaro e impróprio para o plantio de árvores frutíferas. Essa palavra teve aparecimento tardio, pois o primeiro autor a citá-la parece ter sido Euclides da Cunha: "E a catanduva, mato doente, de etimologia indígena dolorosamente caída sobre o seu terrível leito de espinhos!" (Os Sertões, 1902, p. 45). O mesmo autor voltou a citar termo em Contrastes e Confrontos (1907), dois anos antes de morrer.

Catapora s. F. Do tupi tatá = fogo + porá = interior, interno. É uma espécie de varíola benigna, variela. Raimundo Girão observa que Cândido de Figueiredo equivocou-se ao definir a catapora como "bexiga doida", esta na verdade é a varíola e não a Catapora (Vocabulário Popular Cearense, 2000, p. 132).

Catimba s. F. Do kimbundo kashimba = astúcia, engodo, manha, simulação... Ela pode vir em termo de provocação, como acontece em muitas partidas de futebol. Para os brasileiros, os argentinos são catimbeiros e, para os argentinos, os brasileiros é que são catimbeiros. Na verdade, ambos são catimbeiros. Com a catimba ocorre o mesmo que acontece como o homossexualismo na Europa: os alemães o chamam de "mal italiano"; os franceses de "mal alemão"; os italianos de "mal francês"... O certo é que em todos os países existem homossexuais.

Catimbó s. M. Do banto: catimbó = atabaque, uma espécie de tambor usado no culto. O culto ou trabalho de feitiçaria é também conhecido como despacho.

Catinga s. M. Do kimbundo katinga = odor fétido e desagradável do corpo humano, bem como de certos animais e de comida deteriorada. Com frequência ouve-se: catinga do bode, do peba, do gambá, da mucura... Sinônimos: bodum, buzum, inhaca. Termos correlatos: catingoso, catingudo, catinguento.

Catingueira s. F. Planta da família das leguminosas, muito comum na região da caatinga. Desde muito novo eu sempre ouvi o nome dessa árvore - muito comum nos sertões de Crateús - como catingueira. O VOLP traz essa palavra começando com "caa" e com "ca". No masculino, caatingueiro ou catingueiro, tanto significa habitante da caatinga, como relativo à caatinga. José Lins do Rego escreveu: "A vida dos catingueiros era restrita, não conhecia luxo de espécie alguma, vida de pobres" (Usina).

Catita s. F. É uma espécie de rato de minúsculo porte, da família dos didelfídeos. Apesar de ser inofensivo esse animalzinho causa temor e asco em algumas pessoas.

Catolé s. M. É o fruto do catolezeiro, uma palmeira de porte médio e caule esguio, encontrada nas regiões áridas do nordeste, sobretudo em terrenos pedregosos e acidentados.

Catraia s, f. No sertão, o sentido mais comum é o de coisa velha, inútil ou imprestável, isto é, sem serventia, como um carro velho. Na cidade, o termo é usado no sentido de meretriz ordinária, sem atrativos e sem graça.

Catrevage s. F. É possível que seja uma corruptela do latim "caterva" = demais coisas, o resto. O termo designa em geral, coisas sem valor, sem interesse, sobras inúteis, cacarecos, utensílios desarrumados e fora de uso.

Catucar vb. É uma variação de cotucar ou cutucar. Das três formas a menos usada é cotucar e a mais usada parece ser cutucar. O termo indica o ato de pressionar com o dedo uma pessoa para despertá-la ou chamar a sua atenção para algo. Seu étimo é desconhecido, embora Vicente Chermont de Miranda, em "Glossário Paraense", afirme que o termo é de origem tupi (Cf. Tomé Cabral (1973).

Cauim s. M. Do tupi ka'ui = caõy, depois cauí e finalmente cauim. Literalmente significa "vinho qualquer". É uma designação genérica para as bebidas fermentadas que os indígenas preparavam com mandioca, milho e com diversas frutas, especialmente o cajú e o ananás. A informação mais antiga sobre essa bebida é dada pelo Pe. José de Anchieta, em 1584, que vem com a grafia "caõy". Logo depois, em 1585, Fernão Cardim também fala dessa bebida. O nosso José de Alencar cita-a em seus livros: "O Guarani", "Iracema" e "Ubirajara".

Cavaco s. M. Pedaço de madeira cortada ou picada. Quando é de dimensão um pouco maior chama-se graveto. O cavaco, em geral é oriundo do corte de árvores feito com o machado; o graveto são restos de galhos finos que secaram. Ambos são usados no sertão para atiçar ou aumentar o fogo logo que é aceso. No sertão, o termo é usado na expressão: "dar cavaco" = lamentar ou até reclamar muito. Tomé Cabral traz o verbo "cavaquear" = dar cavaco, reclamar. Eu nunca ouvi esse verbo no meu sertão. Parece ser uma forma mais culta.

Cavalice s. F. É termo comum para dizer: grosseria, estupidez, exagero... Um cantador advertia: "Juntar dinheiro é tolice, / cara feia é safadeza / comer demais é cavalice". O termo tem algo a ver com aloprado.

Caxinguelê s. M. Do kikongo kinsegele = caxinguelê. É um serelepe mamífero roedor da família dos esquilos. Em algumas regiões o termo é usado para designar um indivíduo magro, feio e de pequena estatura.

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