Coluna

Herminio Bezerra: O sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 28.05.2018

Na coluna de hoje destaco: Mané-mago; manemolência; manga; mangangá; mangusta, manicaca; maniçoba; manipueira e maniva.

Hoje, no Shopping BENFICA, 1º andar, de 17 às 21 h., estarei lançando o livro: CRUZEIRO, vida e metamorfose (1942-1994). Ele traz a biografia dos 36 homenageados nas cédulas e 113 ilustrações. Os primeiros 300 que adquirirem o livro receberão uma das cédulas que estão no livro. No local haverá uma exposição das cédulas do Cruzeiro, de hoje até 28/6, aberta ao público.

Maneirar - vb. Está relacionado com o modo de agir. Significa tornar menos difícil, menos pesado, mais fácil..., o que implica em facilitar, fazer vista grossa em um exame ou em uma infração de trânsito, por exemplo. Cognato: maneiro = leve, fácil..., com o mesmo significado do verbo, pela natureza, ou pela ação humana. Um inverno maneiro, quer dizer fraco, assim como o inverso, pesado, quer dizer muito forte.

Mané - s. M. Nome frequente no interior para designar um indivíduo atoleimado, desfibrado, néscio, palerma, toleirão. Cognato: Mané-besta = abestalhado; Zé-Mané; Mané-mole e manemolência, que logo veremos.

Mané-mago - s. M. Inseto do sertão, cujo corpo assemelha-se a um garrancho com galhos finos, que formam as suas seis pernas. É da cor de madeira e mede de 5 a 7 centímetros. Nele não se distingue cabeça, boca, estômago..., mas apenas dois minúsculos olhos, se observar bem. Na Semana Santa, na Fazenda Confiança (Tauá), ao escrever esta palavra, eis que pousa um mané-mago na mesa onde eu estava. Um agricultor local me disse que alguns deles chegam a 20 centímetros e assustam a gente.

Mané-mole - s. M. Diz-se do indivíduo sem disposição para o trabalho, sem iniciativa, por demais passivo, preguiçoso, obtuso ou quase idiota. No sertão, chamar o outro de Mané-mole é uma ofensa pesada e pode causar contendas sérias.

Manemolência - s. F. Segundo Tomé Cabral, o termo talvez seja derivado de Mané-mole com o sentido de: moleza, morrinha, preguiça, indisposição... Mas há um segundo sentido: atenção exagerada, agrados sutis com intenção de obter favores, aparato ridículo, beirando o puxa-saquismo.

Manga - s. F. É bem conhecida a polissemia dessa palavra. No sertão, talvez mais do que a fruta e/ou a parte de uma blusa, manga é um tipo de cercado, em geral, na beira de um açude, de uma lagoa ou de um rio, que o criador destina a conservar pasto, capim plantado e muita rama, proporcionando ao gado o alimento e o acesso à bebida, em geral, em um açude ou poço no rio.

Mangaba - s. F. Do tupi, ma'naua = mangaba. Planta da família das apocináceas, chamada mangabeira, cujo fruto é muito apreciado no nordeste. A citação mais antiga está em uma carta de um jesuíta, de 1554 (Cf. Serafim Leite). Mais tarde, 1584, Fernão Cardin diz: A mangaba produz duas vezes por ano. Numerosos escritores usaram essa palavra. Guimarães Rosa cita-a em Sagarana e em Grande Sertão: Veredas. Cognato: mangabeiral = plantação de mangaba.

Mangação - s. F. Significa zombaria, troça, caçoada. O escritor cearense Araripe Júnior, filho de Tristão de Alencar Araripe e neto de Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, já usou este termo, em Luizinha (1878): "Pulem, gritem! Nada de mangação..." (pág. 72).

Mangangá - s. M. Termo de origem tupi-guarani. É uma espécie de besouro marrom, muito escuro ou mesmo preto, muito barulhento e importuno. Sua ferroada dói muito. No kimbundo existe a palavra mangangá com o sentido de: pessoa importante, maioral, manda-chuva.

Mangusta - s. F. Comida, em cujo preparo entram: polpa de manga ainda "de vez", leite e açúcar. É cozida e passada na urupema. É típica da região do cariri, onde é servida na merenda. Não conheci essa iguaria, que vai contra o tabu, generalizado em muitas regiões do Brasil: "leite com manga faz mal". Quando eu fiz o Projeto Rondon, em Sumidouro (RJ), em janeiro de 1974, um garoto da Colônia de Férias que nós rondonistas dirigíamos, perguntou: "Professor, o senhor come manga com leite?" Eu respondi: Sim! Ele: "Pois amanhã vai lá em casa comer manga com leite, pois eu gosto, mas minha mãe não me permite comer dizendo que eu vou morrer." Eu fui e comi. Para a estupefação da mãe dele, eu não morri. Ele pôde, então, comer manga com leite.

Manicaca - s. F. Do kikongo e do kimbundo manikaka = ridículo, risível. Tem também o sentido de bobalhão, covarde, insignificante, palerma. O termo é usado em várias regiões do nordeste, sobretudo, em centros pequenos e médios.

Maniçoba - s. F. Prato preparado com as folhas da mandioca, que Lineu classificou como manihot. É utilíssima, se as folhas forem convenientemente pisadas e espremidas, depois envoltas em toucinho, carne de porco, mocotó e temperos. É um prato popular, típico da Amazônia, mas tem certas variações entre as diversas regiões da imensa região do Norte do país. Cognato: maniçobal = plantação de maniçobas.

Manipueira - s. F. É o líquido resultante da prensagem da mandioca, no curso da preparação da farinha, que tem propriedades tóxicas podendo até matar alguns animais que o consumirem. Por isso, o sertanejo, na farinhada tem muito cuidado para que os animais não consumam esse líquido venenoso.

Maniva - s. F. Do tupi mani = mandioca + iba = pau. Esse é o nome que se dá à haste da mandioca, quer seja ela inteira ou reduzida a pedaços, para o plantio ou para a alimentação do gado. Cognato: desmanivar = resolver a questão. Parece-me ser um verbo de uso raro. Ele é indicado por Raimundo Girão e consta no VOLP.

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