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Hermínio Bezerra: O sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 23.01.2017

Na coluna de hoje indico: carnaval, com a sua longa evolução; casamento, na rica tradição da roça; cavilação, com seus dois sentidos; cavalhada; cavalo; caxambu; e caxixi. Agradeço a minha amiga Rita Oliveira, de Salvador, Bahia, pelas informações passadas a respeito dessa última palavra.

Carnaval s. M. Do italiano carnevale = carnaval. Etimologia reconhecida pela prestigiosa RAE (Real Academia Espanhola). O termo teria origem na expressão: carne vale = adeus à carne. Entrando na quaresma os cristãos renunciavam ao consumo da carne, pelo menos em alguns dias. Era uma festa popular de origem europeia (Veneza, Viena, Lisboa...). No Brasil, até perto de 1900 era um entrudo rústico e alegre em que se misturavam nobres, plebeus e políticos, jogando uns nos outros, água, goma, farinha... Consta que o sisudo Dom Pedro II, num desses carnavais acabou dentro de um tanque (Cf. Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore). O pintor francês Debret retratou num quadro, o Carnaval Carioca. Até chegar às magníficas apresentações das atuais Escolas de Samba, houve um longo percurso.

Casamento s. M. É a cerimônia da união do casal que pretende constituir uma família.

No sertão ele é especial. Em 1964 eu conheci um velhinho na Linha da Serra, (Guaramiranga), que contava como eram "justados" os casamentos no início do século XX: "Na feira de Baturité os pais informavam uns aos outros sobre seus filhos em idade de casar-se... Marcavam o primeiro encontro do rapaz com a moça e após alguns encontros organizava-se o casamento". São vários os santos tidos como casamenteiros: Santo Antônio, São José, São João Batista, São Gonçalo... São muitas as crendices em torno do casamento no sertão: só se deve casar em dia de semana, não no domingo; a noiva deve usar na cabeça uma grinalda de flores de laranjeira; os noivos entram na igreja por último e saem por primeiro; o noivo não deve ver o vestido da noiva antes da cerimônia; o casal será feliz se chover antes, ou depois da cerimônia; ao chegar a sua casa após o casamento é a mulher quem deve entrar primeiro; o marido retira o véu da jovem esposa e coloca-o no oratório da casa.

Cavalhada s. F. Esse é o nome do tradicional desfile de cavaleiros nas festas oficiais. Esse costume é imemorial, pois já existia na antiga Roma no dia da cidade, após os triunfos e mesmo nas festas religiosas. Em Portugal havia esse costume de celebrações equestres nas festas, em especial, na festa de São João. Pelo menos até o início da década de 1970 ainda havia cavalhadas em muitas localidades de Alagoas (Bebedouro, Marechal Deodoro, Pilar...). A cavalhada era o jogo das argolinhas: nele dois grupos de cavaleiros devem - na corrida - colher, com a ponta da lança, argolinhas suspensas a certa altura. Vence o grupo que colhe mais argolas. José de Alencar descreve uma cavalhada clássica no tempo do império, em "O Sertanejo".

Cavilação s. F. O termo é usado no sentido de dengo, manha..., mas também de capricho, esmero e mesmo de esperteza. Diz-se de exigências descabidas e elas são tantas na nossa burocracia, que é uma palavra criada de: bureau = mesa + cracia, de kratós = poder. Portanto, é o "poder da mesa", isto é, do que está à mesa e exagera nas exigências.

Cavalo s. F. Do latim caballus = cavalo. Animal que, domesticado, é muito útil ao homem. Muitos imperadores e reis exibiam-se em cavalos: Gengis Khan, Alexandre, Dario, Calígula. Este, segundo Suetônio, às vezes almoçava na estrebaria com seu cavalo. Napoleão Bonaparte e Muammar Al-Gaddafi (Kadafi), da Líbia, dono de uma coleção de cavalos berberes, da Cirenaica, muito famosos. Na antiguidade e até a Idade Média, possuir um cavalo era luxo. São Francisco, por volta de 1220, proibiu os seus frades de andar a cavalo. Curiosidade: nós tivemos a civilização do couro, ou o ciclo do gado, mas o animal mais favorito e louvado nela, não foi o boi, o novilho e nem a vaca, sim, o cavalo. Isso é patente na literatura de cordel. No sentido figurado chama-se de cavalo alguém muito bruto. O termo está também nas expressões: botar o cavalo em = investigar; cair do cavalo = decepcionar-se; cavalo batizado = estúpido; tirar o cavalo da chuva = desistir de algo desejado ou esperado. É muito conhecido o ditado: "A cavalo dado não se olham os dentes".

Caxixi s. M. Do kikongo, kisisi = caxixi. Instrumento musical do tipo idiofone, cujo som é provocado pela sua vibração. É uma cestinha de cipó, mas forrada por dentro com uma sutil folha de flandres. Ele é provido de uma alça, na qual se coloca um dedo para segurá-lo bem. Dentro do caxixi estão sementes ou grãos secos ou caroços de chumbo. É de origem africana com influências indígenas. É usado nas rodas de capoeira juntamente com o berimbau e também na cerimônia do candomblé. Do meu tempo em Salvador, Bahia, eu lembro e posso afirmar que essa palavra tem outro sentido correlato: São miniaturas de barro ou cerâmica (potes, panelas, tigelas...), que servem de brinquedos para as crianças. Elas são fabricadas em Maragogipinho e levadas para Nazaré das Farinhas, onde ocorre a Feira dos Caxixis na Semana Santa. Em Salvador havia e talvez ainda haja essa feira, onde podem ser comprados esses utensílios em miniatura.

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