COLUNA

Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

frei-herminio

Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 02.01.2017

Na coluna de hoje indico: carcamano, carcará, carimã; carimbo e carimbó; carioca; caritó; carneiro; carona, com seus dois sentidos; carnaúba. Quero desejar a todos os leitores da coluna um feliz 2017.

Carcamano s. M. Apelido que se dá aos árabes em geral, especialmente aos sírios e libaneses. O termo designa igualmente vendedores ambulantes de tecidos e objetos de armarinhos, sejam eles árabes ou não. O fato é que esse tipo de comércio, em longo tempo no nordeste, foi dominado por sírios e libaneses.

Carcará s. M. Ave de rapina da família dos falconídeos, que ataca pássaros menores, mas tem grande preferência por galinhas e borregos. Ele tem o porte um pouco maior do que o gavião comum; é levemente mais claro e tem as pontas das asas brancas.

Careta s. F. É um quadrado de couro que se amarra na cara da rês bravia, vedando-lhe a visão para frente, a fim de conduzi-la com maior facilidade ao curral. O ser sertanejo também chama de careta a rês que tem a cor da cara diferente do corpo: rês branca com a cara preta, ou rês marrom com a cara branca... Note-se que o termo no plural, "caretas", designa um grupo de mascarados, que saem às ruas armados de chibata, para supostamente defenderem a "Quinta do Iscariote", hipoteticamente comprada com o dinheiro da venda do Mestre.

Carimã s. F. Do tupi kari'mã = carimã. De cari = correr + mani = mandioca. . É a farinha de mandioca seca. Ela é feita da mandioca descascada, triturada, amassada e espremida. Os portugueses chegando aqui já encontraram esse uso com os nativos, conforme a carta do Pe. Luis de Grã, de 1554. Gabriel Soares de Sousa fala desse uso em 1587, em Notícia do Brasil. O mesmo faz Frei Vicente de Salvador em 1627, em sua História do Brasil e muitos outros, inclusive estrangeiros, como o holandês Marcgrave.

Carimbo s. M. Do kimbundo ka-kindimbu = marca. É um pequeno ferro de uns 25 centímetros, com cabo de madeira em cuja ponta está o sinal, em geral uma letra, mas pode ser uma figura qualquer - com a qual se marca a criação ou a rês, para identificar o proprietário da mesma.

Carimbó s. M. É um instrumento de percussão, de origem africana. A partir daí, o termo passou a designar também uma dança de roda, muito comum nos arredores de Belém do Pará e na ilha de Marajó. Consta de uma roda de dançarinos e dançarinas. Uma vai ao centro da roda e baila, apresenta o seu gingado e a sua coreografia, depois é substituída por alguém do grupo. A dança é acompanhada de tambores, pandeiro e eventualmente de instrumentos de corda.

Carioca s. M. Apesar de controvérsias, parece que o termo vem do tupi kari'oca = casa de branco ou homem branco. Nessa palavra não é fácil estabelecer os elos entre o tupi e o português. O certo é que essa palavra ficou caracterizada como designativo de quem nasce no Rio de Janeiro. A referência mais antiga parece ser a do Pe. Luis de Grã, Assim como o Visconde de Taunay, em Narrativas Militares e Graça Aranha, em A Viagem Maravilhosa.

Caritó s. M. Tudo o que se sabe sobre a origem dessa palavra é que é indígena. Inicialmente caritó era uma prateleira ou até um armário que ficava na camarinha -lugar reservado da casa - onde se guardam coisas. Para alguns, o caritó pode ser a própria camarinha ou um pequeno quarto contíguo a ela. Raquel de Queiroz escreveu: "Foi direto o caritó no canto da sala da frente, e tirou de sob uma lamparina cuja luz enegrecera a parede..." (O Quinze, (1948), p. 18). O termo é usado na expressão: "Ficar no caritó" = a moça que não se casou.

Carneiro s. M. É o macho da ovelha. Animal conhecido por sua doçura - em contraste com a altivez do bode - ele sempre obedece ao seu condutor. No nordeste o termo é usado para designar uma pessoa que não tem vontade própria e que sempre obedece.

Cognato: carneirada = grupo de pessoas por demais submissas a alguém.

Carniça s. F. O termo deriva de carne, que vem do latim. No nordeste chama-se carniça, os restos podres de animais mortos, que são disputados pelos urubus e outros abutres.

Cognato: carniceiro = o que corta carne, açougueiro, magarefe. Por extensão, também chama-se carniceiro a um matador contumaz.

Carona s. F. No sertão carona é uma capa de couro, apropriada para ser posta em cima da cela do cavalo. Em geral ela é trabalhada na parte externa e tem um ou dois compartimentos internos que são usados para carregar roupas. Ela tem bolsos externos que são usados para portar pequenos objetos. Com o advento do caminhão - por volta de 1950 entre Crateús e Quiterianópolis circulava um caminhão por dia - apareceu um segundo sentido para o termo carona: viagem gratuita num veículo.

Carnaúba s. F. Do tupi karana'iua = carnaúba. Palmeira da subfamília das corifoídeas, de cujas folhas se extrai a cera muito utilizada na fabricação de velas. O sertanejo a chama "a árvore da providência", pois dela tudo se aproveita.

Carrapeta s. F. O termo designa um pequeno pião, usado no sertão, como brinquedo infantil. Mas no nordeste essa palavra é igualmente conhecida e usada pelo público em geral para designar alguém, no mais das vezes um menino muito irrequieto e agitado, tal como esse pequeno pião que gira sobre si mesmo, sempre que é acionado.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.