COLUNA

Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 10.09.2018

Na coluna de hoje destaco: ogã; olheiro, com seus vários sentidos; olho, com as metáforas; omentar; onça; opinião; oração forte e orixá.

Foi eleito Ministro Geral dos Capuchinhos Frei Roberto Genuin, de Veneza, que dirigirá a Ordem pelos próximos seis anos. Nasceu em 1961 e é Doutor "in utroque Jure", isto é, Direito Civil e Direito Canônico.

Ogã - s. M. É um título nagô-queto, dado a membros masculinos de um Terreiro. Cada ogã tem um orixá protetor. Os ogãs ajudam o Pai ou a Mãe de Santo no ritual da invocação da presença dos orixás, durante as danças cerimoniais, contribuem para as despesas do culto e agem como intermediários entre o Terreiro e as autoridades. No curso de psicologia da UFBA, uma das minhas colegas era Paloma Jorge Amado. Isso me possibilitou estar com o escritor Jorge Amado, em sua casa na rua Alagoinhas, Rio Vermelho. Ele era ogã do Terreiro de Mãe Senhora e seu Orixá protetor era Oxossi.

Olheiro - s. M. Esse termo tem vários sentidos: a) vigia de fazenda, de roça, de casa ou de propriedades, inclusive de animais; b) o que monta guarda, durante um roubo, enquanto os comparsas saqueiam a propriedade; c) o observador de times de garotos na periferia das cidades para identificar possíveis futuros craques. Pelé foi indicado ao Santos por um olheiro de Bauru, interior de São Paulo, onde sua família morava.

Olho - s. M. Do latim oculus, oculi = olho. No Nordeste, na região de carnaubais, chama-se olho, a palha nova da carnaúba, a que dá a cera de primeira qualidade, a cera-olho. Essa palavra aparece em muitas expressões populares: olho de cabra morta = olhar lânguido; olho de pitomba = olho esbugalhado; olho grelado = com olhar fixo; com o olho comprido = com inveja; olho de peixe frito = olhar vítreo; estar no olho da rua = estar desempregado ou sem morada; fechar o olho = fazer gesto confirmação ou fingindo que não viu algo; olho de sogra = doce de ameixa recheada; olho pidão... Cognato: olhômetro, gíria para indicar a medição de algo apenas com a visualização.

Omentar - vb. Corruptela do verbo aumentar. Essa pronúncia é bastante comum em extensas regiões do Nordeste. Tive um aluno de nome Oreliano. Eu lhe disse: "Eu já sei que você é de Limoeiro do Norte". "É verdade, mas como o senhor sabe?". "Porque o nome foi dado em homenagem ao grande bispo de Limoeiro do Norte, Dom Aureliano Matos". Assim, no interior, encontramos muitos: Orélio. Orelina e Orora... Com registro ou só pronunciados assim, com "O" em vez de "Au". Patativa do Assaré escreveu: "Chorei fora do comum: / tão grande desgosto tive / que o meu coração sensive / omentou seus baticum" (Citado pelo autor José de Figueredo Filho, em "Patativa do Assaré - Novos Poemas Comentados").

Onça - s. F. Nome vulgar de diversas espécies do mamífero carnívoro, do gênero felino, mais particularmente, a onça pintada, que Lineu classificou como "Felix onça". Há ainda a onça vermelha, a onça preta, a suçuarana ou parda e o tigre, ou onça tigre, que não temos no Brasil, a não ser em algum zoológico, importada da África ou da Ásia. No folclore ela parece na frase: o amigo da onça.

Opinião - s. F. Do latim opinio, opinionis = opinião, conjectura, crença, na tradução dos vocabulários comuns. Mas, no sertão, esse termo tem o sentido de: birra, capricho, teimosia. O matuto diz: Eu carrego comigo uma opinião... Ele quer dizer, uma ideia da qual ele não se afasta, não cede. Quem observou isso foi Leonardo Mota, em "Cantadores" (1921). Depois outros pesquisadores confirmaram sua observação. Cognato: opinioso = birrento, caprichoso, teimoso.

Oração-forte - s. F. A crença em uma oração forte é universal e antiquíssima, oriunda do costume judaico de escrever, em tiras de pano ou couro, trechos da Bíblia e atá-los ao manto. Essas tiras são chamadas filactereas, do verbo grego phylassein = conservar, guardar, ocultar, proteger. Esta é a origem dos amuletos protetores, nos quais são guardadas orações ditas fortes e com poder de proteger quem o porta, de toda sorte de perigo. Alguns amuletos têm apenas a invocação final de uma antiga oração de Santo Agostinho: "Agiós o Theós, Agiós Ischirós, Agiós Athanatós, Eleissón Imás" = "Deus Forte, Deus Imortal, tende misericórdia de nós". Essa invocação na antiguidade e na Idade Média era repetida em alta voz por ocasião de peste, de fome e de guerras. Circulam orações ditas fortes que são misturas de crendices e sandices que não merecem o nome de oração, como a do "Credo às avessas" e a "Oração da Cabra Preta". Lampião e os cangaceiros usavam patuás com a "Oração do Rio Jordão". Se você quer uma oração forte, eu indico o "Pai nosso", rezado com sentimento e convicção, sentindo o que você está dizendo.

Orixá - s .M. Do ioruba orisá, designação genérica das divindades africanas cultuadas no Brasil. Essas divindades, no candomblé, são intermediárias entre os devotos e a suprema divindade, à qual os humanos comuns não têm acesso. Os principais orixás são: Oxalá, Xangô, Ogum, Oxossi, Omulu, Exu, Iemanjá, Iansã, Oxum, Ifá, Beji e Ibeji, Anamburucu e Oxummaré. Mas essa relação não é única ou universalmente aceita. Uma tática de sobrevivência da crença no candomblé, usada aqui pelos escravos africanos, foi a de associar a cada orixá, um santo da religião católica, que lhes era imposta. Houve um período da colonização em que não se podia entrar aqui, se não fosse católico batizado. Por isso, os escravos eram batizados na África, ao embarcar, no percurso até aqui, ou no porto, mas ainda dentro do navio. O batismo era o passaporte que dava direito à entrada no Brasil.

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