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Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 03.09.2018

Na coluna de hoje destaco as palavras: nódoa; noitário; nomarada; nove-horas; novidade; novilho; nuvem; oca; ocara; oiti e oiticica.

Hoje, aqui em Roma, será eleito o novo Geral dos Capuchinhos, em substituição ao Frei Mauro Jöhri, Geral da Ordem Capuchinha desde setembro de 2006, de quem eu fui Secretário de 2007 a 2012.

Nódoa - s. F. Mancha indelével produzida pelo suco de certas frutas ou pela seiva de algumas árvores. No Nordeste, são conhecidas as da seiva do caju e do caroço de abacate. A tradição diz que a nódoa de caju durará até a produção do ano seguinte. No interior ouve-se o termo "noda" em vez de nódoa.

Noitário - s. M. Termo tradicional para designar a pessoa (seja homem ou mulher) que, nas novenas e trezenas festivas no interior, encarrega-se de organizar a parte social dos festejos: angariar as prendas, prover as bebidas geladas, etc. O noitário, muitas vezes, é também o patrocinador, total ou parcial, daquela noite. Às vezes, o noitário não é apenas uma pessoa, mas um grupo de pessoas. Neste caso, há uma divisão de tarefas e um coordenador, para que tudo funcione muito bem.

Nojenteza - s. F. Termo popular, advindo de nojo, sendo este oriundo do latim nausea = asco, repulsa. O termo popular é usado tanto no sentido de sujeira, imundície, como no sentido de libidinagem. Embora este sentido seja menos frequente, me parece.

Nomarada - s. F. O termo designa uma sequência de nomes, nomenclatura, vocabulário. Ignez Mariz escreveu: "É meter dentro do quengo, essa nomarada toda" (Cf. "A Barragem"). Ouve-se esse nome no interior, onde muitos apenas sabem soletrar alguns nomes. Quando a minha mãe me ensinava a formar as sílabas eu vi, na contracapa da Cartilha do ABC, dois nomes que me pareciam enormes e perguntei: "Mamãe quando eu chegar no fim dessa cartilha, eu saberei ler estes nomes?". Ela respondeu: "Sim!". Os dois nomes eram: Edições Melhoramentos.

Nove-horas - s. F. Pl. Expressão muito comum no linguajar popular com vários sentidos correlatos: invencionices, exigências descabidas, encrencas, dificuldades artificiosas para fazer algo, melindres, salamaleques e que tais. Câmara Cascudo diz que, até meados de 1850, às 9 horas da noite tocava-se o sino e era a hora de cessar a vida social. O escravo não podia mais sair após essa hora. Dizer que alguém é cheio de nove-horas é o mesmo que dizer que é cheio de nó pelas costas.

Novidade - s. F. Do latim novitas, novitatis = novidade, coisa nova. Esse seria o primeiro sentido e o mais frequente. Mas o termo novidade tem vários sentidos: a) dificuldade, embaraço, encrenca; b) importunação, intriga; c) fuxico, mexerico; d) coisa ainda pouco esclarecida; e) gravidez, em se falando da mulher. Cognato: novidadeiro = o que gosta de novidades e, por extensão, mexeriqueiro.

Novilho - s. M. Bovino não castrado, com três anos de idade. Diz-se, igualmente, novilha para designar a garrota na mesma idade. Cognatos: novilhote e novilhota são os termos usados no sertão para garrotes e garrotas até dois anos e meio de idade.

Nuvem - s. F. O sertanejo nordestino acredita que a nuvem é um ser que tem vida própria e movimentos conscientes. Ele conhece as nuvens de vento (estratos e cirros) e as de chuva (cúmulos e nimbos). Há os que conversam com as nuvens e as interpelam. Há nuvens que se carregam e descarregam chuva no sertão; nuvens que se aproximam e nuvens que se distanciam; nuvens que se concentram e trazem a alegria da chuva e nuvens que se dispersam e fogem para bem longe, para tristeza do sertanejo.

Oca - s. F. Do tupi oka = casa. O termo designa a cabana indígena, uma casa de madeira coberta de palha, com duas ou três portas e um espaço único. A notícia mais antiga sobre a oca está em Fernão Cardim, "Origem dos Índios do Brasil" (1584). O nosso José de Alencar fala da oca em "Iracema" (1865) e em "Ubirajara" (1874). Guimarães Rosa também se refere à oca em "Grande Sertão: Veredas" (1956).

Ocara - s. F. Do tupi o'kara = Rua. O nome designa o espaço no interior das aldeias indígenas, onde em geral as ocas são edificadas uma perto da outra, mas não coladas, de modo que tenha espaço na frente, atrás e nos lados. A notícia mais antiga sobre a ocara parece ser a de José de Alencar, em "Iracema" (1865).

Oco do mundo - Expressão para indicar um lugar incerto, indefinido, remoto, distante e desconhecido. A expressão "cair no oco do mundo" significa largar-se de sua terra sem destino previsto, desaparecer deliberadamente.

Oiti - s. M. Fruto do oitizeiro, árvore da família das rosáceas. Ele tem uma massa comestível, mas não muito apreciada. O oitizeiro é uma árvore de grande porte, faz muita sombra e, por isso, é usada na arborização de alamedas e avenidas de muitas cidades, sobretudo, no nordeste.

Oiticica - s. F. Do tupi ui'ti = oiti + icica = resina grudenta. Árvore de grande porte, chegando a mais de 10 metros de altura, que exala odor muito forte, da família das rosáceas. Produz sementes oleaginosas, das quais se extrai óleo bastante usado na indústria. A oiticica cresce em terrenos de baixadas e na beira de riachos e rios. Na minha região, há bastante pés de oiticica às margens do rio Poti. Os comboieiros arranchavam-se à sombra benfazeja das oiticicas. Há quem julgue a oiticica como uma árvore propícia para manifestações de assombração, talvez, por sua densa folhagem, que dá uma impressão sombria à noite.

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