Coluna

Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

frei-herminio

Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 27.08.2018

Na coluna de hoje destaco as palavras: naquilo natural; navegar, com seus dois sentidos; negacear; negar; negócio, com seus dois sentidos; negrada; nhandu; nhem-nhem-nhem; ninar; ninhada e noite.

Ontem foi aberto solenemente, aqui em Roma, na Itália, o 85º Capítulo Geral dos Capuchinhos, do qual participo como intérprete e tradutor oficial para os oito países de língua portuguesa, com quase 250 milhões de falantes.

Naquilo - Palavra formada da contração de "em aquilo" = naquele momento, com isso, em vista disso, nesse ínterim... O termo é usado no início de uma frase para indicar um momento em que algo acontece, como fez Pedro Bandeira: "Começou a discussão, / Joaquim começou a chorar. / Naquilo, apitou um carro, / Raimundo foi reparar" ("A voz de Frei Damião e a cura do aleijado"). Há uma exceção, bem conhecida, de uso desse termo no fim da frase: a aluna, Marina da Glória, falsa pudica da Escolinha do Prof. Raimundo (Chico Anísio), que em tudo via intenção sexual e sempre dizia ao colega: "Imoral, você só pensa naquilo!". Na verdade, quem pensava era ela.

Natural - s. M. O termo é usado para indicar o lugar de onde a pessoa é, onde ela nasceu, pátria, terra natal. Um repentista escreveu: "Coitadinho de quem anda/ Fora de seu natural/ Se um dia passa bem/ Três dias passa mal".

Navegar - vb. Do latim, navigare = navegar. Registro essa palavra para lembrar que no nosso sertão essa palavra é sinônimo de viajar, andar, não necessariamente de navio. Leonardo Mota registra essa palavra com a frase: "Estou acostumado a navegar neste caminho" ("Cantadores"). Rodrigues Carvalho traz a quadra: "Meu Sales eu tenho pena/ De seres um pobre cego/ Não puderes enxergar/ o caminho em que navego" ("Cancioneiro do Norte", Fortaleza, 1903, p. 130). Assim, no sertão, pelo menos no passado, navegar era usado no sentido de "andar na terra".

Negacear - vb. Tem o sentido de negar-se, desviar-se, esquivar-se... Fingir que não quer... Como quem provoca e se esquiva ou foge. É um termo frequente no interior, também usado com relação aos animais que tentam se aproximar, mas ao mesmo tempo fogem quando veem as pessoas.

Negar - vb. Do latim, negare = negar, não dar, não conceder. No sertão, esse verbo aparece em muitas expressões populares: Negar de pés juntos = negar categoricamente ou sob juramento; negar fogo; negar o corpo; negar pão e água = nada conceder; não dar o menor auxílio, nadinha.

Negócio - s. M. Do latim, negotium = negócio, ocupação, trabalho. Palavra formada de duas outras: nego (de negare, negar), + otium = ócio, desocupação. Além disso, significa: assunto, coisa, motivo, caso... É usado também no lugar da palavra que, em dado momento, não vem à memória. O termo aparece em algumas expressões: negócio da China; negócio atravessado; negócio feio, negócio sujo.

Negrada - s. F. Essa palavra indica um coletivo. Ao contrário do que possa parecer, não é de negro, mas de grupo, turma... Que pode ser de escola, de esporte, de folguedo, de música e até de cangaceiros. É um termo frequente no linguajar sertanejo.

Nhandu - s. M. Do tupi ia'nu = nhandu, ema. É outro nome para designar a ema. Não confundir com a nambu ou nhambu, que é um tipo de perdiz, muito menor do que a ema. A notícia mais antiga parece ser a Fernão Cardim, em "Do Clima e Terra do Brasil" (1584). Mais tarde, Gabriel Soares de Sousa cita-a em "Notícia do Brasil" (1587). Com o desmatamento e a invasão dos nossos serrados para o cultivo da soja, as emas estão ficando raras ou mesmo desaparecendo.

Nhem-nhem-nhem - Expressão recorrente no interior para indicar: queixas, conversas fastidiosas, lamentação sem fim, lenga-lenga enfadonha e repetitiva. Curiosidade: o Volp apresenta lenga-lenga (com hífen), mas o verbo "lengalengar" é sem hífen. É uma coisa sem lógica, mas é assim, pois numerosas normas gramaticais só se justificam pelo capricho e decisão do legislador.

Ninar - vb. Nome de origem árabe pela terminação "ar", segundo Antenor Nascentes. É o mesmo que nanar, visto semana passada, fazer dormir a criança, sendo nanar linguagem infantil e coloquial. Ninar já é uma corruptela do antigo verbo português aninar, termo registrado por Raphael Bluteau (1725), um dos mais antigos dicionários da língua portuguesa. Aninar é ter a criança nos braços para fazê-la adormecer. Aninar e ninar sempre é feito com cantigas de acalanto.

Ninhada - s. F. O termo é formado a partir de ninho para designar filhotes de animais, mormente de aves, como galinhas, capotas, patas, avestruzes... Mas pode aplicar-se a mamíferos, como uma ninhada de bacorins, que chegam a ser dez ou mais.

Noite - s. F Do latim nox, noctis = noite. Na mitologia greco-romana, a noite é filha do caos e por isso está associada a acontecimentos aterrorizantes. Na tradição antiga falava-se de horas abertas: os crepúsculos matutino e vespertino e a meia noite, como horas em que podem acontecer muitas coisas negativas ou nocivas às pessoas. Ao mesmo tempo, na tradição, a noite é também um convite à reflexão e ao repouso. Na Antiguidade, a alguém que tinha um problema dava-se esse conselho: "Ponha uma noite no meio!". Os gregos tinham um nome Eubulia = Mãe do Bom Conselho. No sertão muitos consideram a noite como boa conselheira para as decisões do dia seguinte.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.