Coluna

Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 13.08.2018

Na coluna de hoje destaco as palavras: mufumbo; mugido ou mungido; munduru; munganga; murici; mutirão; mutuca; mutum. Hoje termino as palavras com a letra "M".

Mufumbo - s. M. Do kikongo mufunmu/mufumba = mufumbo. É uma planta da família das leguminosas que, em geral, cresce nas margens dos rios. O termo tem um segundo sentido: lugar retirado, escuro, misterioso. É semelhante a cafundó.

Mugido - adj.Do latim mulgere = mungir. Denominação dada ao leite que acaba de ser mungido (forma clássica), isto é, leite ordenhado e extraído das tetas da vaca mediante a pressão dos dedos, que devem ser movimentados de modo sincronizado e ritmado, a partir do polegar até o dedo mindinho. Essa não é uma operação fácil, como se pode pensar. Um tradutor incauto confundiu mulgere, (mungir) com mungere (assoar).

Munduru - s. M. Palavra de origem africana munduru = montículo, como os que fazem as formigas e os cupins, removendo a terra e acumulando-a. Algumas vezes o termo é usado no sentido de mondrongo, ou elevação natural, como as que têm o camelo, o dromedário e o gado zebu. Na minha região usava-se muito essa palavra.

Munganga - s. M. O termo parece ser de origem banto, onde temos moganga e mogango, ambas no masculino, com o sentido de trejeito, careta, momice... Florival Serraine e Raimundo Girão trazem a palavra no masculino, enquanto Tomé Cabral e Câmara Cascudo, no feminino. Patativa do Assaré escreveu: "Procurando distração,/ vou ver na televisão/ as mungangas dos artista/ e vou vê os animá/ da Quinta da Boa Vista" (Inspiração Nordestina).

Muquirana - s. F. Do . Tupi moki'rana = piolho da pele, Mas se esconde nas dobras das vestes de onde sai para atacar a pessoa. Guimarães Rosa cita a muquirana em "Grande Sertão: Veredas" (1956). Também pode ser alguém maçante, enfadonho, chato.

Murici - s. M. Na segunda metade da década de 1960 alguém, instado a falar sobre o regime militar recém instalado no Brasil (1964), esquivou-se de fazê-lo, alegando que estávamos em "tempo de murici, cada um cuide de si". Aparentemente estava citando o provérbio popular, mas na verdade referia-se ao General Antônio Carlos Muricy, um dos influentes militares do Brasil em 1964. Ao contrário dos demais registros, ele deixou escrito que a dita revolução começou no dia 2 de abril e não na noite de 31 de março de 1964.

Mussambê - s. M. Arbusto da família das caparidáceas, que Lineu classificou como cleome aculeata. Suas folhas e raízes são usadas na medicina caseira. Existem várias espécies: mussambê-branco, mussambê-roxo; mussambê-de-espinho...

Muriçoca - s. F. Do tupi muri'soka = muriçoca; É uma variedade de mosquito. O termo é conhecido a partir de 1833. A partir daí vários autores referem-se à muriçoca. Sobretudo Inglês de Sousa, Coelho Neto, Mario de Andrade, Jorge de Lima e Guimarães Rosa.

Mutamba - s. F. Do kikongo e do kimbundo, mutamba = mutamba. Árvore da família das esterculiáceas, que Lineu classificou como guazuma ulmifolia. A sua entrecasca é usada na medicina caseira, sobretudo em loções para o cabelo. Sua folha, após ser posta para secar, é usada como substituto do tabaco ou fumada misturada com este, para se obter efeitos estupefacientes. Em algumas regiões, ela é usada para fumigações, feitas na boca da noite, com a finalidade de afugentar os entes malfazejos que costumam vagar depois do pôr do sol (Cf. Stradelli, "Vocabulário da língua Geral", 562).

Mutirão - s. M. Segundo o Aurélio, o termo vem do tupi moti'rõ = mutirão e designa a ajuda mútua que se prestam, uns aos outros, os lavradores em determinados períodos, tais como, na semeadura, na limpa dos roçados e na colheita. Por turnos, reúnem-se os da redondeza e trabalham para um só até que todos tenham sido atendidos. A referência mais antiga a essa palavra parece ser de José de Alencar em "Til" (1872). Inglês de Sousa usou-a em O "Missionário" (1899) e Lima Barreto, em "Policarpo Quaresma" (1915).

Mutuca - s. F. Do tupi mu'tuka = mutuca ou mosca do gado. É uma grande mosca da família dos tabanídeos, cuja picada é muito dolorosa. A notícia mais antiga sobre a mutuca é de Gabriel Soares de Sousa, em "Notícia do Brasil" (1587). Ela parece ter preferência pelos bovinos. Um provérbio sertanejo diz; "É a mutuca que tira o boi do mato". Ela também ataca o ser humano. Como tem o dobro do porte da mosca comum, ou até um pouco mais, a mutuca é lenta ao deslocar-se e pode ser abatida com facilidade.

Mutum - s. M. Do tupi mi'tu = mutum. É uma ave galiforme da família dos cracídeos. De cor predominantemente preta, mas com tons brancos nas asas e na barriga. Foi citada a primeira vez por Fernão Cardim, em "Do Clima e Terra do Brasil" (1584). Mais tarde, em 1587, Gabriel Soares de Sousa cita o mutum, em "Notícia do Brasil". É citada por dezenas de autores: Afonso Arinos, "Pelo Sertão" (1898); Gastão Cruls, "A Amazônia que eu vi" (1930) e Guimarães Rosa, em "Sagarana" (1946).

Muxila - s. F. Do kiongo e do kimbundo munsila = muxila. É uma espécie de saco de tamanho pequeno e/ou médio, usado para carregar objetos pessoais e pequenas coisas. No sertão viajantes, trabalhadores, caçadores... Costumam usar muxilas.

Muxoxo - s. M. Som breve, semelhante a um estalido, obtido pela contração do terço médio da língua sobre a abóbada palatina, num brusco movimento de sucção. O muxoxo é indicativo de discordância, desdém, mesmo de aborrecimento.

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