COLUNA

Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 30.07.2018

Na coluna de hoje destaco as palavras: moquém; moqueca; morador; mordido; mororó; morrer; morrinha; morubixaba; mossa; mourão.

Moquém/muquém - s. M. Do tupi, mocáem = assar nas labaredas. O termo designa a maneira antiga de preparar a carne segundo uma técnica indígena primitiva, que foi transmitida pelos nativos aos primeiros colonizadores do Brasil. Trata-se de uma espécie de grelha feita de varas, usada para assar ligeiramente a carne. A informação mais antiga sobre o moquém (a comida) está na Carta de Frei Luis de Grão, de 1554 (Cf. Serafim Leite, Cartas II). Moquém designa também uma planta cuja folha é dada ao gado como uma boa ração.

Moqueca - s. F. Segundo Gonçalves Dias, vem do tupi mokeka = embrulho (Cf. Raimundo Girão, "Vocabulário Pop. Cearense", 2000, p. 269). É um guisado de peixes miúdos, misturados com farinha de mandioca e assado envolto em folhas de bananeiras. Estudioso de origem de palavras, Paulino Nogueira põe em dúvida se o termo é de origem indígena ou africana. Ele tem razão, pois eu já morei seis anos em Salvador e vi que lá as baianas fazem muita moqueca. Segundo Yeda Pessoa de Castro, essa palavra vem do kimbundo, mukeka = guisado, (Cf. Falares Africanos na Bahia, 1998, p. 289).

Morador - s. M. Além de ser habitante de um lugar, no sentido genérico, no Nordeste o termo é usado para indicar um agregado da fazenda ou do sítio, que aí reside com um acordo verbal ou apenas com uma permissão implícita do dono. O morador, às vezes, paga renda do que ele próprio produz na terra, com permissão do patrão, ou, simplesmente, paga com serviços diversos. Agregado, morador e patrão ajudam-se mutuamente e ambos precisam um do outro. Não é comum, mas há casos em que o morador torna-se um familiar do patrão. Uma observação do matuto sobre um tipo estranho, diz: Deus tem cada morador!

Mordido - vb. Particípio passado do verbo morder. No Nordeste, o termo é usado no sentido de enraivecido, ofendido, zangado e até como que enlouquecido por alguma coisa que a pessoa não aceita. O termo está ligado à raiva causada pela mordida de cães infectados da doença. No sertão, quando alguém se mostra muito enraivecido, se diz: "Fulano parece que foi mordido por cachorro doido".

Mororó - s. M. Árvore da família das leguminosas cesalpinoideas, muito comum em grande parte do Nordeste. Segundo Cândido de Figueiredo é típica do Ceará ("Dicionário da Língua Portuguesa", 1949, vol. 2, p. 423). Existem vários tipos: mororó-de-espinho, mororó-da-flor-vermelha... Sua madeira é resistente e é usada para fazer mourões em muitas fazendas do interior.

Morrer - vb. Além de designar o ato final da vida de toda pessoa, vale a pena relembrar os muitos sentidos metafóricos do termo morrer: a) ser obrigado a dar dinheiro, ou pagar a conta; b) acovardar-se, quando antes se blasonava de valentia; c) diz-se do mel de engenho que, após mexido, chega ao ponto de cristalização e forma a batida ou a rapadura; d) o fim de uma travessia, como escreveu Jader de Carvalho: "Ali começava longa travessia que, depois de quatro léguas de deserto, ia morrer na porta dos Ferreiras" (Aldeota). São curiosas duas expressões comuns: a) Morrer de morte morrida = ter morte natural; b) Morrer de morte matada = por acidente, assassinato ou suicídio.

Morubixaba - s. M. Do tupi moru'i'saua = morubixaba, capital ou qualquer um que tem autoridade, poder de mando, sobre um grupo. Usado com frequência para dizer chefe indígena no tempo da colônia. O termo é registrado, pela primeira vez, por Fernão Cardim em Origem dos Índios do Brasil (1584). Mais tarde o Pe. Luis Figueira usa essa palavra em sua Relação do Maranhão (1608) (Cf. Serafim Leite). O nosso José de Alencar usa-a em Minas de Prata (1866) e em Ubirajara (1874). Monteiro Lobato faz o mesmo em Urupês (1918), bem como Mário de Andrade, em Macunaíma (1928) e Guimarães Rosa, em Caetés (1933).

Mossa - s.F. Antes de tudo é bom dizer que esta palavra, por sua origem, deveria ser "morsa", pois vem de morsus, morsa, morsum, particípio passado de mordere = morder. A mossa é um vestígio de pancada ou mordida. Esse termo é muito usado pelos numismatas que classificam moedas para coleção, as quais, examinadas com potentes lentes de aumento, mostram mossas invisíveis a olho nu. Incluo esse vocábulo porque faz parte do vocabulário dos criadores de caprinos e ovinos que são marcados com incisões nas orelhas chamadas mossa, canzil e outras mais.

Mourão - s.M. É uma grossa tora de madeira, muitas vezes de aroeira ou de angico, fincada ao solo, nos currais. No mourão amarram-se os bezerros e garrotes para ferrar, castrar e outras reses para tratar de bicheira. Na casa de meu avô materno, além dos mourões do curral havia dois mourões de aroeira na frente da casa onde se amarravam os animais de sela. Essa palavra, associada à ideia de firmeza, fortaleza e higidez, foi adotada como sobrenome de família. Note-se que mourão é também um tipo de verso usado na cantoria nordestina, que também se denomina trocado. Uma quadra satírica em Pernambuco dizia: "Nasceu periquito,/ morreu papagaio;/ não quero história/ com treze de maio".

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