Coluna

Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 16.07.2018

Na coluna de hoje destaco as palavras: mixuruca; milagre; milhado; milhar, com seus dois sentidos; minar; mindim; mingau; mimoso; minhoca; miolo e miunça.

Michuruca - s. M. Significa reles, de aspecto desprezível, sem valor. O termo michuruca é mais frequentemente usado em referência a coisas, diferente de micharia, que no mais das vezes refere-se a dinheiro.

Milagre - s. M. Do latim miraculum = milagre, prodígio, maravilha, coisa extraordinária. Na linguagem popular denomina-se "milagre" um artefato ordinariamente de cera ou de madeira reproduzindo uma parte do corpo humano (mão, pé, braço, perna, cabeça...) que foi curada de uma doença, oferecida em agradecimento pela cura. Os grandes Santuários: Nossa Sra. De Nazaré (PA); Santa Cruz dos Milagres (PI); Canindé (CE); Bom Jesus da Lapa (BA) têm a sala dos milagres, onde são guardadas essas peças que os fiéis levam aos santuários, também chamadas "ex-votos". Esta é uma abreviação ou uma redução da frase latina: "Ex voto suscepto", isto é, "por promessa feita a Deus", em reconhecimento e agradecendo a Deus uma cura obtida.

Mil e um - Expressão genérica, comumente usada para significar um sem número de coisas, como em: Hoje eu tenho mil e um afazeres. O conto árabe "Mil e uma noites" tem sentido semelhante: a bela Sherazade, para não ser morta pelo Sultão, (que mandava matar a mulher, após a primeira relação, por medo de ser traído), narrava contos maravilhosos, que eram suspensos em momentos estratégicos e continuados na noite seguinte. E assim viveu com o Sultão por mil e uma noites. É a maravilha do conto árabe.

Milhado - adj. Termo formado a partir de milho. No sertão diz-se milhado, do porco, do cavalo ou outro animal que se mostra forte e nutrido graças às rações de milho que ele come. O termo é registrado por Leonardo Mota em Sertão Alegre.

Milhar - vb. / s. F. Essa palavra, no sertão é usada como verbo transitivo no sentido de dar milho a um animal do qual se cuida especialmente. Na cidade a palavra é usada no feminino "a milhar", em referência ao jogo do bicho. O cantor popular Moreira da Silva canta um sucesso, de Geraldo Pereira, Etelvina (1958), que começa assim: "Etelvina, acertei no milhar"...

Mimoso - s. M. Que tem mimos, meigo, afetuoso, sensível, carinhoso. Além desse sentido, no sertão, mimoso é um capim que, nos bons invernos, cobre os campos e é ondejado pelo vento no fim do inverno e começo do verão. Curiosidade: mimosa, o feminino é um nome frequente de vaca, pois de cada dez criadores, quatro, cinco ou seis têm uma vaca chamada mimosa. Sei disso pela minha convivência com o sertão.

Minar - vb. No sertão diz-se minar, da água que brota da terra em cacimbas, em geral, feitas nos leitos de um rio seco. Tem, pois, o sentido de porejar, verter pouco líquido. O folclorista e pesquisador cearense, Leonardo Mota, em Sertão Alegre, levanta a hipótese: não seria essa palavra "minar" uma corruptela de "manar"? Ele define o termo como: "verter pouco".

Mindim - adj. Este termo é a corrupção popular do termo clássico mindinho, sendo que este vem de mínimo o qual deriva do latim minimum, então, mindim de corrupção em corrupção vem do latim. No sertão fala-se tanto em dedo como em costela mindim. A linguagem popular não se incomoda com a flexão de gênero. Os letrados dizem costela mindinha. O nosso Domingos Olímpio usou o termo em "Luzia Homem", assim como, José Américo de Almeida em "A Bagaceira".

Mingau - s. M. Do tupi mina'u = mingau. É um alimento de consistência pastosa preparado com leite e massa de trigo, de aveia, de mandioca, de milho, de arroz... Na sua preparação pode entrar também um pouco de água, açúcar, ovos e muitas vezes ele e temperado com um pouco de pimenta e depois de feito, alguns põem por cima, um pouco de canela-da-Índia. Alimento de origem indígena.

Minhoca - s. F. Do banto, quinioca; do kikongo e do kimbundo, (mi)nyoka = verme anelídeo, que também e conhecido como cobra-cega e cobra de duas cabeças. O termo é usado no sentido figurado para indicar pessoa muito magra.

Mironga - s. F. Do banto, variante de milonga, que tem o sentido de chatice, tolice, besteira... Essa palavra tem um segundo sentido que é feitiçaria, bruxedo. No kikongo milonga significa mistério. Vinícius de Morais e Toquinho, em 1972 incluíram a frase em uma de suas músicas: "Você que ouve e não fala, / Você que olha e não vê, / Eu vou lhe dar uma pala, / Você vai ter que aprender: Na tonga da mironga do kabuletê". Frase propositadamente enigmática que mereceu várias interpretações, inclusive de que seria contra o regime militar dos anos 70. Não sei que a explicação foi dadas pelo autores.

Miolo - s. M. Do latim medulla = medula, parte interna central, miolo. Diz-se da parte do pão que fica dentro da côdea, bem como, da parte interior da fruta, polpa, medula. Pode até não ser algo generalizado, mas o matuto usa o termo "miolo" no sentido de juízo, quando diz: ele/ela não tem miolo = não pensa, não mede consequências. O termo aparece em expressões: Conversar miolo de pote = falar besteira; é como miolo de pote e manga de colete = coisas inexistentes.

Miunça - s. F. O termo é formado a partir de miúdo, pequeno. No sertão o termo designa o gado formado de caprinos e ovinos, mais comumente chamado de "criação". O termo é usado por Leonardo Mota , em Cantadores.

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