Coluna

Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 25.06.2018

Na coluna de hoje destaco as palavras: marruá; martelo, com seu duplo sentido; máscara; massapé; mastigado, com seu duplo sentido; mastruz; mata-cachorro; matapasto e matintapereira.

Marruá - s. M. Termo usado em dois sentidos: a) indivíduo inexperiente, imperito, desajeitado; b) novilho/a que vivendo livre no pasto e na mata, ainda não foi ao curral. Esse termo tem o sentido de bravio, forte, arredio que nunca foi domado. Às vezes é usado para se referir a uma criança vivaz, contumaz e pouco habituada a seguir normas e orientações dadas. É registrado por Gustavo Barroso, em "Terra de Sol: natureza e costumes do Norte" (1956).

Mártir-Santo - s. M. No Nordeste, ou em grande parte dele, essa expressão é usada para se referir a São Sebastião, de maneira especial e mesmo exclusiva. Tio Davi, irmão de meu pai, era muito devoto do Mártir-Santo. Para os devotos essa expressão é uma maneira de reverenciar o santo. Ouvi muito essa expressão, tanto em Quiterianópolis e adjacências, como no Ipu, cujo padroeiro é São Sebastião.

Martelo - s. M. Primeiro designa o utensílio de bater prego. No mundo da cantoria o martelo é uma das formas poéticas que adotam os cantadores nos desafios ditos agressivos nas palavras, feito em décimas. Conheça e admire a modéstia, no início do desafio de Domingos Fonseca (PI) e Dimas Batista (PE). Esses dois martelos são do dia 05/10/1948. Ei-los: D. F. "Recordo Castro Alves na versagem,/ Tiradentes na sua história pública,/ Lembro Deodoro na República,/ E vivo Miguel Ângelo na Imagem;/ Imitando Oliveiros na coragem,/ Ou um Ferrabrás de Alexandria,/ Comparando-me a Nero na soberbia,/ E na ciência a Tales de Mileto,/ Sou Augusto dos Anjos do soneto/ Luiz Vaz de Camões na poesia!". Ao que responde D. B.: "Assisti a tragédia do dilúvio,/ Contemplei todo o incêndio de Sodoma,/ Fui ministro dos Césares em Roma,/ Penetrei nas crateras do Vesúvio;/ Comovido senti o doce eflúvio/ Dos sermões de Jesus na Galileia,/ Escavei as ruínas de Pompeia,/ Sondei todas a grutas netuninas,/ Tomei parte nas lutas herculinas/ Fui criado com o leite de Amalteia!". Agora eu pergunto: Será que meu colega de faculdade no início dos anos 1970, Raul Seixas, conhecia esses versos, quando, em 1976, compôs: "Eu nasci há 10 mil anos atrás"?

Máscara - s. F. Tudo indica que vem do árabe maskhara = zombaria. A máscara é uma imitação grotesca ou uma figuração fantástica, como as colocadas na proa dos barcos desde o tempo dos vikings, até os barcos do nosso rio São Francisco. Mas, no sertão, "máscara" é, sobretudo, um pedaço de couro que o vaqueiro põe para tapar a cara e estreitar a visão da rês bravia e fujona, de modo que ela só pode ver de soslaio e é obrigada a andar devagar, seguindo o caminho. Em várias regiões a máscara é chamada "careta".

Massapê - s. M. Terra argilosa e cinzenta, chegando quase a preto. É boa para o plantio da cana-de-açúcar e, nas partes mais baixas, para o plantio de arroz nos bons invernos ou com irrigação, pois o arroz exige muita água. O massapé, com muita chuva, torna-se um terreno cheio de barro lamacento.

Mastigado - adj. Além de ser o particípio passado do verbo mastigar, o termo é muito usado, como adjetivo, no sentido figurado de coisa planejada, bem encaminhada ou quase pronta. Além disso, é usado em referência a uma pessoa que tem o cabelo crespo ou pixaim. Diz-se ainda da pessoa que fala de maneira pouco clara, seja pela articulação difícil de se compreender ou pela tonalidade da voz.

Mastruz - s. M. Nome de um arbusto que Lineu classificou como chenopodium ambrosioides, de cujas sementes é extraído um óleo que tem propriedades vermífugas. Na medicina popular o mastruz é aplicado no tratamento de afecções respiratórias e até da tuberculose, tanto sob forma de infusão, como mediante ingestão do próprio sumo extraído de suas folhas. Devido ao seu sabor não tão palatável, o sertanejo costuma adicionar leite ao sumo do mastruz. O cearense Emanuel Gurgel criou, em 1990, a banda de forró Mastruz com Leite, que, a partir de 1994, passou a ter muito sucesso no Brasil, ensejando a criação de outras bandas do gênero. Mastruz com Leite foi a primeira banda de forró a se apresentar no exterior, nos EUA, em 2002, e, na Europa, em 2003.

Mata-cachorro - s. M. Essa era a alcunha que, antigamente, até idos de 1950, era dada aos soldados da polícia estadual no Nordeste. Naturalmente, essa é considerada uma expressão bem depreciativa, pois fala de um pai que não aceita que sua filha namore um mata-cachorro.

Mata-pasto - s. M. Da família das leguminosas Sesalpinoides. Arbusto invasor dos campos abertos e pastagens. Para o sertanejo esse é um indício de que terminou o inverno (estação das chuvas) é quando o mata-pasto começa a florar.

Matintapereira - s. F. Do tupi, mati-taperê = matintapereira. É o nome de uma pequena coruja que é considerada agourenta. Dizem que, com seu piado na calada da noite, ela anuncia a morte de alguém, que pode ser da região ou da família, mesmo vivendo distante dali. Segundo Stradelli, os índios acreditavam que os pajés se transformavam nesses pássaros, para se transportarem de um lugar para o outro e exercerem as suas vinganças (Cf. "Vocabulário da Língua Geral"). Para o sertanejo, o piado de muitas corujas no início da noite, no mês de janeiro, é sinal de bom inverno (chuva).

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