Coluna

Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 11.06.2018

Na coluna de hoje destaco as palavras: maracatu; maracujá; marchador; marchante; marco, com seus dois sentidos; maré e maria-isabel. Agradecimentos ao leitor da coluna, Adelmar Carlos, que telefonou para lembrar que mão de vaca é também uma pessoa sovina, mão fechada!

Maracatu - s. M. Designa um grupo carnavalesco pernambucano, mas existente em vários estados, inclusive no Ceará, que, acompanhado de pequena orquestra de percussão com tambores, chocalhos, gonguê... Percorre as ruas, cantando e dançando sem coreografia especial. O maracatu tem um tirador de loas ou solista e um grupo que responde. É clara a influência africana, mesclada de elementos ameríndios e europeus.

Maracujá - s. M. Do tupi moraku'já = maracujá. Em cinco grafias possíveis no tupi, a sílaba inicial aparece em três formas: "ma", "mo" e "mu". Nome comum a várias frutas da família das passifloráceas e aos seus frutos. A notícia mais antiga sobre este fruto parece ser a de Fernão Cardim em Do Clima e Terra do Brasil (1584). O poeta satírico baiano Gregório de Matos usou a palavra em 1696. O mesmo fez Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas (1956). O maracujá tem uma flor com muitos elementos visuais que foram usados pelos missionários na catequese, mostrando a coroa de espinhos (de Jesus Cristo) e os cravos, com os quais Jesus foi crucificado. Por isso, o maracujá ficou conhecido como o "fruto da paixão" = fruit de la passion, em francês.

Maracutaia - s. F. Palavra originária do kimbundo ma(dia)kutola = engodo, trapaça, armação ou armadilha feita propositadamente para enganar os outros. No Brasil dos políticos temos maracutaia como claro roubo, que não parece estar no sentido primevo.

Marapatá - s. F. É uma pequena ilha na foz do rio Negro com o Amazonas. A tradição local diz que ela está no limite da consciência do civilizado, pois quem sobe a Amazônia deixa a consciência em Marapatá. Na Europa Medieval dizia-se que o europeu, quando ia fazer fortuna no Oriente, deixava a consciência no Cabo da Boa Esperança, (África do Sul). Kaspar van Barleus registrou essa ideia no dito latino: Ultra aequnotialem non peccatur = abaixo da linha do equador, não se peca. Esta frase está numa música cantada por Nei Matogrosso, no grupo Secos e Molhados.

Marcação - s. F. É um termo frequente e forte, muito usado com o sentido de: 1) implicância deliberada, que chega a ser preconceito, oposição constante e forte, que se pode até usar para prejudicar o outro. Neste sentido, Mário Landim escreveu: "Os padres toda vida tiveram marcação com meu Padrim" (Cf. Mãe d'água e caipora). 2) É o ato e também o período de ferrar o gado, que em geral acontece no final do inverno e início do verão, portanto entre maio e junho.

Marchador - adj. Palavra típica do Brasil dos tropeiros, que terminou na década de 1950. Designa o animal de sela, um burro ou um cavalo, de boa marcha. Portanto, refere-se à andadura do animal, que se classifica em: marcha alta (a mais rápida); marcha baixa e meia marcha. Essa atividade era tão importante que criou expressões típicas: Dar de marcha = partir; de marcha batida = continuamente, sem parar para nada; fechar a marcha = ser o último do comboio, ficar na retaguarda para não deixar nenhum animal para trás. Atenção: O feminino de marchador é marchadeira.

Marchante - s. M. Designação dada tanto ao homem que compra gado para o corte, como aquele que tem por ofício abater o gado e talhar a carne para a venda. João Martins de Ataíde, um de nossos grandes versejadores, falando das profissões dos bichos, escreveu: "O lobo era capitão / o urubu era marchante, / o jacaré bacharel, / o canguru comerciante".

Marco - s. M. No sertão tem dois significados bem distintos: a) Uma pequena coluna de pedra e cal ou de tijolo e cal, podendo ser uma haste de uma madeira forte como angico ou aroeira, que marca a limite de uma propriedade; b) no reino da cantoria é uma construção imaginária, que numerosos cantadores nordestinos dizem ter mandado erguer, cheia de armas invencíveis, uma espécie de fortaleza inexpugnável, com segredos defensivos e forças mágicas, às quais ninguém poderá resistir. Talvez, como "os foguetes inteligentes do Donald Trump". Um cantador diz: "Mandei bombear o marco / com 1.200 cano, / Todos do mesmo modelo / dum canhão americano, / até com outra nação / nós já temos munição / para brigar quinze anos". O outro apresenta o seu: "Saiba Deus e todo mundo; / Meu marco está assentado / com ordem do Imperador / licença do Delegado! / com 10 léguas de distança, / meu ronco é diferençado" (Leonardo Mota, Violeiros do Norte (1925), São Paulo, pp. 96-970.

Maré - s. F. É o movimento das águas do mar, dividido em: maré alta e maré baixa. O registro dessa palavra eu o faço, sobretudo, para informar sobre uma crença antiquíssima que teria sido assinalada por Aristóteles e confirmada por Plínio, o velho, que morreu no ano 79 d. C. Em sua História Natural, II, 220, segundo a qual, a pessoa só morre na maré baixa. Essa crença está espalhada em muitos países: Portugal, Espanha, Inglaterra e em diversas ilhas da América central.

Maria-Isabel - s. F É um prato típico nordestino que prima pela simplicidade: É arroz cozido com carne seca, cortada em pedacinhos. O segredo parece estar no tempero, pois dificilmente uma é igual à outra, apesar da simplicidade dos dois elementos básicos de sua composição, sempre há uma mais saborosa do que outra.

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