Coluna

Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 04.06.2018

Na coluna de hoje destaco as palavras: manjado; manqueira; manso; manta, com seus dois sentidos; mão; mão de vaca; maracá e maracanã.

Manjado - adj. Essa palavra, por ínvios caminhos, vem do verbo francês manger = comer, através do latim, manducare = comer, consumir, e, figurativamente, "conhecer". O que não é novidade, que já é bem conhecido, batido. Tanto pode tratar-se de um objeto, de um brinquedo, como de uma história ou de uma informação que alguém dá pensando ser novidade.

Manjerioba - s. F. Planta da família das leguminosas, também conhecida como fedegoso A ela são atribuídas várias propriedades medicinais. A citação mais antiga parece ser de 1833. Usaram o termo os escritores: Franklin Távora, em O Cabeleira e Jorge de Lima, em Calunga. Este escreve magerioba. O VOLP traz manjerioba.

Manqueira - s. F. Essa palavra forma-se a partir do verbo manquejar. Trata-se de um carbúnculo que ataca os cascos do gado e faz com que ele passe a andar manquejando. O Patativa escreveu: "Ficou uma bezerrinha / atacada de manqueira. / O patrão não quis comprá-la, / tratei dela a vida inteira /e botei na bezerrinha / o nome de lavandeira."

Manso - adj. Do latim mansus, mansa, mansum, que é o particípio de mando, mandas, mandavi, mandare = mandar. Portanto, o que se deixa mandar, conduzir... Diz-se do animal domesticado, especialmente, do cavalo amansado e adestrado, que qualquer um pode montar sem susto de pinotes, bem como do boi adestrado para carregar a canga, à que está atrelado o carro, a charrua ou o arado, que os bois arrastam lentamente.

Manta - s. F. No sertão manta é uma peça de couro curtido, de criação ou de veado, podendo ser de palha ou de pano grosso, que se põe no dorso da cavalgadura entre a esteira e a sela. Cognato: manta de carne = é uma grande porção de carne de bovino, caprino ou ovino, compreendendo quase toda a extensão do animal. Um bom presente que o sertanejo pode dar ao citadino é uma manta de carne de carneiro de Morada Nova ou de Tauá, sem desprezar os ovinos de outras regiões, estas duas têm boa fama.

Mão - s. F. Importante parte do corpo humano que, na linguagem popular, aparece em dezenas e dezenas de expressões, em sentido real ou metafórico, relacionado com ações e reações humanas. Eis algumas que não precisam de explicação, pois são de uso comum: acertar a mão; aguentar a mão; atado de pés e mãos; carregar a mão; com a mão na massa; com o coração na mão; com quatro pedras na mão; conhecer como a palma da mão; dar uma mão; deixar de mão; de mão beijada; de mão cheia; ficar na mão; passar a mão; mão aberta; mão fechada; mão de ferro; mão de mestre...

Mão de vaca - s. F. Prato típico de muitas regiões do nordeste, preparada com mocotó do bovino e vários outros ingredientes do mesmo animal, como tripa, bucho, bofe... E com temperos, como cebola, alho, tomate, hortelã. Sua preparação é sempre longa. É considerado um prato pesado para a digestão.

Mãozada - s. F. O primeiro sentido do termo é pancada com a mão. Mas no sertão há um segundo sentido que é apanhar certa quantidade com a mão, de modo que ela comporte o máximo que se apanha. Assim, diz-se: com uma mãozada de goma faz-se uma boa tapioca.

Maracá - s. M. Segundo Teodoro Sampaio o termo vem de Marã-acá = cabeça de ficção. É o instrumento que dá o ritmo dos cantos e danças ameríndios. Por isso é o primeiro e mais importante dos instrumentos musicais dos indígenas do Brasil. É uma cabaça à qual está acoplado um cabo de madeira e dentro dela sementes secas ou pedrinhas, que dão um rumor típico ao agitar-se o instrumento. Os maracás têm vários tamanhos e modelos, como simples, duplos.... Há maracás feitos de crânios de animais, de madeira e de barro cozido. Muitos pajés usam maracás nos funerais e nos seus trabalhos de feitiçaria. O maracá está associado ao costume universal das religiões de usarem instrumentos sonoros nos rituais sagrados. Basta ler o livro do Êxodo 28, 34-35.

Maracajá - s. M. Do tupi maraka'ia = maracajá. Tratando-se do gato selvagem, diz-se maracaya mimbaba. É um tipo de gato do mato, da família dos felídeos. A notícia mais antiga está numa carta do padre Luis de Grã, de 1555 (Cf. Serafim Leite, Cartas II, 1957). Mais tarde também Gabriel Soares de Sousa (1587) fala desse felídeo. O nosso José de Alencar fala em Iracema e em Til; o Visconde de Taunay cita-o em Inocência e em Histórias Brasileiras. Enfim vários outros escritores, como: Inglês de Sousa, em o Missionário (1858); Aloísio Azevedo, em O Cortiço (1890); Coelho Neto, em Miragem II (1895); Guimarães Rosa, em Sagarana (1946)...

Maracanã - s. F. Do tupi maraka'na = maracanã. Ave psitaciforme, da família dos psitacídeos. É uma espécie de papagaio, que também se assemelha a uma arara pequena. A informação mais antiga sobre ela é dada por Gândavo (1576), que compara maracanã ao melro europeu. Mais tarde, Gabriel Soares de Sousa fala da maracanã, ressaltando que tem cabeça amarela e rabo comprido e vermelho. Mário de Andrade cita a maracanã em Macunaíma (1928). O mesmo fazem José Lins do Rego em Banguê (1934) e Guimarães Rosa em Sagarana (1946).

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