Coluna

Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 21.05.2018

Na coluna de hoje destaco as palavras: mambembe; mameluco; mamulengo; manauê; mandacaru; mandar; mandinga; mandingueiro; mandioca e mandureba.

Na próxima segunda-feira, dia 28, no Shopping Benfica, térreo, entre 17h e 21h30, estarei lançando meu livro "Cruzeiro, vida e metamorfose (1942-1994)". Ele traz a biografia dos 36 homenageados nas cédulas e 113 ilustrações. Os primeiros 300 que adquirirem o livro, vão receber uma cédula das que estão no livro. No local haverá uma exposição das cédulas do Cruzeiro com visita livre em todo o mês de junho.

Mambembe - adj. Do kikongo mambembele = medíocre, de má qualidade, inferior, ínfimo. Diz-se também de um lugar afastado, inóspito e desabitado. O termo é muito empregado em referência a circo de ponta de rua, que muitas vezes só tem três ou quatro quadros: um macaco, um malabarista e um palhaço.

Mameluco - s. M. O alemão Marcgraves explicou em latim: "Qui natus est ex patre europeo et matre brasiliana nominatur Mameluco = Chama-se Mameluco quem nasce de pai europeu e mãe brasileira". Couto de Magalhães deu uma explicação elogiosa: "O cruzamento do branco com o índio produziu uma raça mestiça, excelente pela sua energia, coragem, sobriedade, espírito de iniciativa, constância e resignação em sofrer trabalhos e privações; é o mameluco, tão justamente célebre na história colonial de São Vicente" (Cf. "O Selvagem") e por Euclides da Cunha (Cf. "Os Sertões"). Mas ao mameluco, ao lado destas qualidades, é apontado um defeito grave: o da imprevidência, ou indiferença com relação ao futuro, ele não poupa, não capitaliza. Para ele, o mês seguinte é como se não existisse.

Mamulengo - s. M. Nome dado aos bonecos de teatro de fantoche, populares em Pernambuco e em muitas outras regiões do nordeste. Na verdade, o mamulengo é um personagem universal da imitação e da caricatura, iniciativa da inventividade humana desde tempos imemoriais. Na Grécia eram chamados neuro-spata; em Roma eram simulacra; na Itália, barattini. Desde a Idade Média eram conhecidos nas mais variadas regiões da Europa: Germânia, Gália, Espanha, Inglaterra... Luís Edmundo fala do sucesso do mamulengo na capital do Brasil no século XVIII no artigo: "No tempo dos Vice-Reis" (Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Vol. 163. Tomo 109). O grupo musical Mastruz com Leite, na canção "Flor do Mamulengo", traz a bela metáfora: "Já estou com os nervos à flor do pano".

Manauê/ Manuê - s. M. Bolo de massa de mandioca, no mais das vezes, ou de massa de milho, leite de coco, manteiga e açúcar, assado no forno. Esse tipo de bolo parece estar ficando raro, mas ainda tem seus apreciadores.

Mandacaru - s. M. É chamado de cereus jamacaru. Trata-se de um cactus de grande valia para o sertanejo nos anos de grande seca, quando falta a pastagem para o gado. Djacir Menezes exalta-o em "O Outro Nordeste", livro escrito como réplica ao "Nordeste" de Gilberto Freire, que se limita ao nordeste canavieiro.

Mandar - vb. Muito usado no sertão com sentidos correlatos: a) dar ordem, ter poder sobre alguém; b) viajar, quando é usado na forma passiva: ele se mandou dali. Aparece em várias expressões: - Mandar e desmandar = ter poder absoluto; - Mandar às urtigas = desprezar; - mandar bala, chumbo = atirar; - Mandar desta para a melhor = matar; - Mandar brasa = agir, aviar; - Manda quem pode e obedece quem tem juízo, diz um provérbio nordestino; mandão: pessoa que gosta de dar ordens.

Mandinga - s. F. Do kimbundo mazinga = ação de complicar, de impedir por feitiço, coisa feita, ebó, oração forte, trapaçaria. O termo está ligado a ardil, bruxaria, catimbó, feitiçaria, mau-olhado... A sua origem estaria entre os escravos vindos do Senegal e do Níger (Cf. Câmara Cascudo, "Dicionário do Folclore", 1954, pág. 378). Essa palavra é africana, mas é largamente conhecida em todo interior do Brasil.

Mandingueiro - adj. Termo derivado de mandinga com o significado de ardiloso, trapaceiro, dado a bruxarias. Destaco a palavra, por me lembrar que no sertão dos Inhamuns, falava-se em vaqueiro ou trabalhador mandingueiro, no sentido de preguiçoso, enrolão, escorão. E também em "boi mandingueiro" = fujão, que se esconde habilmente no mato, mimetizado entre as árvores como se tivesse poderes especiais, para não ser visto pelo vaqueiro.

Mandioca - s. F. Do tupi mandiog, corruptela de manioga. Rodolfo Teófilo sugere outra origem: de mandi = pão + oca = casa. Teodoro Sampaio explica o termo como proveniente de mandy-oga, a partir de manyba ou mandyba = planta de entorpecer, uma alusão ao veneno que possui essa raiz. Antenor Nascentes diz que essa é uma das palavras tupis mais difíceis de explicar, pelas ramificações em várias línguas (Cf. "Dicionário Etimológico", 1932, pág. 488). É um afamado tubérculo euforbiáceo, do qual se faz a farinha de mandioca, muito apreciada na culinária nordestina. Cognato: mandiocal = plantação de mandiocas.

Mandureba - s. F. Aguardente na linguagem popular jocosa e um tanto restrita. Mesmo assim, está citada em vários autores: Gustavo Barroso, "Terra de Sol"; Leonardo Mota, "Cantadores"; Rodrigues de Carvalho, "Cancioneiro do Norte"; Jesus Barros Boquady, "Dicionário de Sinônimos da Cachaça"; Raimundo Girão, "Vocabulário Popular Cearense"; Florival Serraine, "Dicionário de Termos Populares".

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