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Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 16.04.2018

Na coluna de hoje destaco: lorde; loréu; loro, lorota; lote; louro; louvação; lua; lundu, com seus dois sentidos; lutrido; luva e luxo.

Lorde - adj. E s. M. É o aportuguesamento do termo inglês "Lord". No sertão é usado no sentido pejorativo: Lorde é alguém que quer ser mais do que aquilo que é, seja, mais rico, mais poderoso ou ser melhor do que os outros.

Loréu - s. M. Termo usado no sentido de um veículo - no mais das vezes um caminhão - velho e muito gasto, modelo antigo. É mais empregado em vilas e cidades menores.

Loro - s. M. Do latim lorum = correia. O termo designa uma forte correia dupla que prende o estribo à sela. É no estribo que o cavaleiro apoia o pé para montar-se no cavalo selado. Uma fivela possibilita o ajuste, conforme o tamanho do cavaleiro. Essa palavra é usada no sentido figurado na expressão: "encurtar os loros" = restringir os desejos, reprimir os impulsos. O VOLP traz o termo loro, com o sentido de denunciador.

Lorota - s. F. Designa mentira, invenção, jactância, peta, patranha... Tem também o sentido de basófia e de pilhéria. O escritor cearense João Clímaco Bezerra escreveu: "Talvez seja verdade. Meu tio não é homem de lorotas" (Sol Posto). Cognato: lorotar = mentir, contar petas; loroteiro, a mesma coisa; lorotagem = ato de mentir.

Lote - s. M. Usado no sertão no sentido de ajuntamento, agrupamento de animais, sobretudo, nas expressões: boi de lote = o boi solto no pasto, nos campos... Diferente do boi manso, domesticado, que tem os chifres furados e aceita a canga à qual se atrela um carro com cereais e mercadorias, que ele puxa; cavalo de lote ou pai d'égua de lote = é o cavalo não castrado, o garanhão solto no pasto.

Louro - s. M. Do latim laurus = louro, de cor amarela ou dourada. Mas no nordeste, popularmente chama-se louro o papagaio, ave nativa, facilmente domesticável e capaz de repetir palavras da linguagem comum familiar. Existe a árvore louro-amarelo, da família das lauráceas, cuja madeira é muito apreciada e empregada em construções e em carpintaria, por sua boa qualidade.

Louva-a-Deus - s. F. Inseto montoide muito comum no Brasil. Tudo indica que a referência mais antiga é a de Nuno Marques Pereira, no impagável "Peregrino da América" (1728) ao qual assim se refere: "Há no Brasil uns bichinhos que lhes chamam louva a Deus... Estes animalejos são como um grilo. Porém mui magros e estéticos: trazem as mãos postas, juntas, os joelhos dobrados, e os olhos levantados para o céu, e por esta razão lhes chamam louva a Deus". O naturalista alemão Georges Marcgrave descreve a louva a Deus em sua História Natural do Brasil, (n° 733), mas com o nome de Gaaiara.

Louvação - s. F. Do latim laudatio, laudationis = louvação. O primeiro sentido é de uma saudação de louvor e agradecimento à divindade e aos santos. A louvação no nordeste é um tipo de apresentação dos repentistas e cantadores sertanejos, feitos aos donos da casa em que se encontram, ou a determinada pessoa, podendo ser, inclusive, sob encomenda, ou recomendação de alguém. Na louvação são ressaltadas as virtudes e as qualidades da pessoa louvada.

Lua - s. F. Do latim luna = lua. O satélite da terra, tão admirado e louvado. O brasileiro, sobretudo, o do sertão herdou do português, do índio e do negro a admiração e o respeito por este satélite da Terra. Há muitas tradições populares com referência à lua cheia, crescente ou minguante. São várias as expressões com lua: lua da cela = é a parte arqueada e elevada da sela, que sobressai à frente, onde às vezes, se leva uma criança, em curtos passeias a cavalo. A expressão estar de lua = estar de mau humor, que se atribui sob a influência da fase da lua. Há ainda a expressão: cara de lua cheia = pessoa de rosto muito redondo.

Luita/Loita - s. F. Do latim, luctare = lutar. Termo frequente, em algumas regiões do sertão no sentido de luta, labuta, assim como as formas verbais: luitar e loitar. Essa é uma palavra que eu ouvi muito de sertanejos no interior dos Inhamuns.

Lundu - s. M. Do banto lundu = amuo, capricho, chateação, zanga. Tem variações no kikongo kalundu = obedecer ao mandamento e mulundu = canto, melodia harmoniosa. Palavra bem conhecida em certas regiões no sentido de zanga, confusão. Cognato: lunduzeiro = pessoa que se zanga facilmente e vive criando confusão.

Lutrido - adj. No sertão ouve-se essa palavra, que é uma corruptela de "nutrido" = bem tratado, delgado, bonito. O sertanejo diz: "Nesse inverno, aqui nos Inhamuns, a criação está toda bem lutrida".

Luva - s. F. No sertão, é uma peça da indumentária do vaqueiro. Na verdade é uma luva de couro, mas com a particularidade de não ter a parte debaixo que cobre a palma da mão. Isso é pra facilitar o movimento de pegar no rabo da rês a fim de derrubá-la.

Luxento - adj. Termo pejorativo, com o sentido de chato, exigente, pretensioso, cerimonioso, exigente de detalhes e de ritos, querendo ser muito mais do que aquilo que realmente é, ou ser mais do que os outros.

Luxo - s. M. Usado no sentido de afetação, cerimônia, dengue... É registrado por Leonardo Mota em Cantadores: "Largue de luxo pro meu lado. Isto é que é um menino cheio de luxo".

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