Coluna

Frei Hermínio Bezerra: O sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 05.02.2018

Na coluna de hoje eu destaco: janeira, jardineira; jataí, uma planta e uma abelha; jatobá; jegue e jeito com seus vários sentidos; jeitoso; jenipapo, com sua grande utilidade; jequi e jequitibá.

Janeira - s. F. Esse nome designa uma canção popular entoada por um grupo que visitava amigos no primeiro dia do ano, ainda fazendo parte do ciclo de festas do Natal, dizia-se dar as janeiras ou cantar as janeiras. Eram versos alvissareiros dirigidos aos visitados. O nosso Gustavo Barroso, no seu livro "Ao som da viola" registrou alguns desses versos: "Janeiro vai, / Janeiro vem, / Feliz daquele / a quem Deus quer bem! Janeiro vem. / Janeiro foi, / Feliz daquele que tem seu boi!".

Jardineira - s. F. Esse nome designa uma faca longa com mais de 10 polegadas de comprimento, cabo esterçado e com arruelas de cobre e chifres de ambos os lados. Poder-se-ia pensar que o nome vem por ser apropriada para trabalhar em jardim, mas não é. O nome vem do fato dela ter sido criada e inicialmente fabricada em Jardim, no sul do Ceará.

Jataí - s. M. Do tupi jeta'i = jataí. Planta da família das leguminosas, subfamília das cesalpináceas, cuja madeira é utilizada na construção civil. Quanto à abelha vem do tupi jate'i = jataí e também jati. Como jati essa abelha é conhecida no Ceará, pelo menos na região dos Inhamuns, mesmo se está em extinção pelos prolongados anos de seca. A madeira é conhecida desde 1618, através do Diálogo das Grandezas do Brasil. A abelha é conhecida desde 1789, através de Francisco Antônio Sampaio em: História dos Reinos Vegetal, Animal e Mineral do Brasil. José de Alencar (1865) cita essa abelha como jaty e Guimarães Rosa (1946) como jati. Bernardo Guimarães (1869), Visconde de Taunay (1872), Afonso Arinos (1898) usam a forma jatahy. Monteiro Lobato (1818) fala de jity, referindo-se à mesma abelha. Também é o nome de município de Goiás.

Jatobá - s. M. Do tupi jeti'ua = jatobá. Planta da família das leguminosas, subfamília das leguminosas, variedade de jataí. A primeira informação sobre o jatobá é de Domingos do Loreto Couto, em Glórias de Pernambuco (1757). José de Alencar cita o jatobá tanto em Iracema, como em Minas de Prata, ambos de 1865. Dez anos mais tarde, em Ubirajara e em O Sertanejo. Dois outros autores que citam o jatobá são Graciliano Ramos, em Vidas Secas (1938) e Guimarães Rosa, em Sagarana (1946) e em Grande Sertão: Veredas (1956). O jatobá produz uma vagem que seca e dentro tem um caroço envolto num pólen amarelo, uma espécie de amido que é saboroso.

Jegue - s. M. Nome popular do jumento no nordeste, também chamado jerico. Animal de grande serventia no sertão. O padre Antônio Vieira, do Iguatu, criou na década de 1960 um movimento de valorização e respeito ao jumento. O cantor Luis Gonzaga aderiu ao movimento e fez elogios ao jegue em algumas de suas canções. O termo jegue é também usado em sentido pejorativo: indivíduo estúpido, grosseiro e ignorante.

Jeito - s. M. Usado para designar certo modo de agir, certa maneira de ser. O matuto diz: ele tem jeito de ser um bom trabalhador... Ou ele tem jeito de preguiçoso... O segundo uso é luxação, torcedela. Essa palavra aparece em muitas expressões: dar um jeito = arranjar um modo de resolver algo, dar uma solução; de mau jeito = sem cuidado, desajeitadamente; de um jeito ou de outro = seja lá como for, de gosto ou contra a vontade; ficar de meu jeito = como eu quero; estar no jeito = confortável ou como deve ser.

Jeitoso - adj. Muito usado no interior para dizer: de boas maneiras, educado, prestativo, muito interessado e habilidoso no que faz. O termo é empregado também para dizer de alguém que tem dotes e habilidades para uma profissão ou arte.

Jenipapo - s. M. Segundo Batista Caetano, o nome vem de nhandipab = fruta de esfregar. Os indígenas cortam o jenipapo ainda verde e esfregam no corpo. O sumo que sai funciona como protetor solar e é de uma tonalidade azul ímpar. O jenipapo e o urucu eram os principais produtos de maquiagem da mulher ameríndia. Além dessa utilidade, os indígenas faziam vinho de jenipapo, que consumiam em rituais especiais. Segundo Raimundo Girão há uma tribo indígena chamada Jenipapo.

Jequi - s. M. Cesto grande, também chamado caçuá. É usado como artefato de pesca feito de cipó entrançado. Com o jequi - que no mais das vezes se pronuncia jiqui - o praieiro pesca camarões, sardinhas e peixes menores. No sertão, a mesma palavra designa um corredor delimitado por varas, que serve como pista de corrida nas vaquejadas.

Jequitibá - s. M. Do tupi jikiu'ua = jequitibá. Planta de grande dimensão da família das liticitidáceas. Os textos antigos sempre fazem alusão às dimensões dessa árvore e da grande quantidade de madeira, muito usada na marcenaria. A notícia mais antiga é a de Gabriel de Sousa, de 1587, em Notícia do Brasil, que ele grafa como "juquitibá". Bernardo Guimarães, em "O Ermitão de Muquém" (1869), chama o jequitibá de "o rei das florestas". José de Alencar, em "O Tronco do Ipê" (1871), fala de um jequitibá que dava sombra a todo o curral de gado. Joaquim Nabuco, em "Minha Formação" (1900), fala de "um jequitibá escondido na mata virgem". José Lins do Rego, em "Bangué" (1934), cita essa árvore; e, Guimarães Rosa, em Sagarana (1946), cita o jequitibá-rosa, que é a mais apreciada espécie de jequitibá.

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