Coluna

Frei Hermínio Bezerra: o sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 06.11.2017

Na coluna de hoje destaco: gandaia; gangorra; ganhar; ganzá; garapa, com sentidos diversos; garatuja; garfo, de orelha de bode; garganta, com seus dois sentidos; garrafada; garrancheira; garrar e garupa.

Gandaia - s. F. Termo indicado para dizer boa-vida, malandragem, vagabundagem, vida de farra. Ouvem-se muito as expressões: "cair na gandaia" e "viver na gandaia" = pensar só em festas e em farras. É o que o francês chama de "bon vivant". Cognato: gandaieiro, que me parece ser pouco usado.

Gangorra - s. F. Do banto, gangorra é um balanço de crianças, formado por uma tábua pendurada entre duas cordas. Raimundo Girão registra gangorra como uma armadilha para apanhar animais de caça, ou para apanhar peixes. Eu não conheci essa armadilha. E Tomé Cabral registra dois outros sentidos: a) corredor com cerca de varas, que vai ter ao bebedouro para o gado; b) engenho de pau, para moer cana-de-açúcar. Informação útil: Segundo o Acordo Ortográfico expressões com três elementos, sendo um de ligação, (de/com/para/por...) não têm mais hífen (Base XV, 6), exceto nas espécies botânicas e na fauna. Eis porque cana-de-açúcar tem hífen. É uma exceção inútil, mas obedecemos.

Ganhar - vb. Um verbo forte na minha lembrança da infância, não pelo primeiro, mas pelo segundo sentido. Ganhar é receber de presente ou vencer uma disputa, uma aposta. Mas no sertão ele é, frequentemente, empregado em outro sentido: tomar a direção de; ir num certo rumo. Eu sempre escutei esse verbo referente aos animais: o gado ganhou o rumo do Morro dos Torrões; os bodes ganharam a Estrada da Alegria; os carneiros ganharam a direção da Malhada Grande; os bezerros ganharam o rumo do angico torto. Esse sentido de "ganhar" era comum nos Inhamuns.

Ganzá - s. M. É uma espécie de maracá indígena, que consta de um cilindro de folhas de flandres fechadas, com um cabo em que se segura. Dentro há grãos ou pedrinhas que emitem sons, ao se agitar o maracá. Os maracás de indígenas eram de tabocas de bambu. Agita-se o ganzá conforme o ritmo da música. Ele acompanha todos os ritmos do samba ao carimbó, passando pela valsa e a polca.

Garajau - s. M. É um cesto grande feito de vime, de bambu ou de cordas com a finalidade de transportar para a feira ou outro lugar, em curta viagem, galinhas, capotes, patos e outras aves. Um cantador parodia: "O peru vendia milho, / porco, feijão e farinha, / raposa também trazia / um garajau de galinha".

Garapa - s. F. Esse termo designa várias bebidas, refrigerantes feitas com água, açúcar, mel ou rapadura e suco de frutas como: buriti, tamarindo, laranja, maracujá, murici... Chama-se também garapa o sumo da cana moída antes de ir para o tacho para ser fervido e transformado em mel, alfenim ou rapadura. Na gíria do futebol garapa é quando o atacante fica além da defesa do time contrário, só esperando para receber a bola e fazer o gol. O Romário, quando jogava, era considerado garapeiro.

Garatuja - s. F. Má caligrafia, toda garafunhada, que requer interpretação, pois, muitas vezes, não se consegue decifrar todas as palavras. Quando se trata de uma receita médica o paciente corre o risco de tomar o remédio errado. Um sinônimo de garatuja é garrancheira.

Garfo - s. M. Além de utensílio que faz par com a faca, usados para comer, no sertão garfo é um sinal que se faz na orelha dos caprinos e ovinos. Consiste no corte da ponta da orelha do animal de forma dentada. O sertanejo é inventivo, pois criou mais de uma dezena de sinais para a orelha dos caprinos: canzil; buraco de bala; coice de porta; levada; mossa; brinco; bico de candeeiro; ponta de lança; folha de figueira e outros.

Garganta - s. F. Designa a região posterior à cavidade bucal. Mas é usado em outros sentidos: a) uma passagem estreita entre montanhas, desfiladeiro; b) gabolice, boa conversa, com a qual se quer convencer o outro. Um cantador dispara: "Amigo, conversar não adianta, / o que vale é ser realizado, / eu sei que você é preparado, / porém não me vence com garganta". Cognato: gargantear = pabular-se, contar vantagem. Esse verbo é usado raramente. Em algumas regiões usa-se também dizer "papo" e "queixo" no sentido de tentar convencer as pessoas.

Garrafada - s. F. Remédio caseiro posto em garrafas, feito com ervas, cascas de árvores, frutos, folhas, raízes... E leite de janaguba... É preparado por raizeiros, com a promessa de curar todos os males, sobretudo aqueles que os médicos não conseguem.

Garrancheira - s. F. No sertão diz-se do amontoado de galhos finos e secos de árvores ou arbustos derrubados na preparação das roças, para plantar feijão e milho. Chama-se também garrancheira, uma escrita mal feita que não se consegue ler ou decifrar.

Garrar - vb. No sertão escuta-se bastante esse termo, que é uma aférese de "agarrar". Usa-se muito com os utensílios: "eu garrei o machado e fui cortar lenha no quintal", "garre a vassoura e varra a casa". Esse termo tem também o sentido de iniciar algo: "eu garrei a imaginar"... "eu garrei a me perguntar", "garrei no sono".

Garupa - s. F. No sertão é, sobretudo, a parte detrás da montaria, atrás da sela põe-se um forro e pode ir uma pessoa, sobretudo, uma criança. Isso acontece em percursos não muito longos, pois a garupa não é tão confortável quanto a cela.

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