Coluna

Frei Hermínio Bezerra: O sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 15.05.2017

Na coluna de hoje eu destaco: dordolho; dormideira; dormir; drama; durafogo; dureza; égua e ema.

Ainda é tempo de lamentar a morte inesperada e súbita de meu colega de noviciado, em 1964, no Convento de Guaramiranga, Belchior, Resta-me a lembrança de sua alegria franciscana, seu sorriso largo e a sua capacidade de improvisar versos cômicos e satíricos. Que o Senhor o tenha consigo.

Dordolho - s. M. Termo formado pela aglutinação da expressão "dor de olhos". É uma oftalmia ou conjuntivite, frequente, principalmente em crianças, sobretudo, em comunidades carentes. Alguns atribuem sua origem a um vírus. É provável que, em alguns casos, seja também um problema ligado à falta de assepsia.

Dormideira - s. F. No interior dá-se o nome de "dormideira" a um remédio caseiro, que consta de chá calmante, o qual provoca sono profundo. Diz-se o mesmo do estado de sonolência que leva a pessoa a dormir. Isto pode ser por excesso de cansaço. Em Quiterianópolis existe a localidade chamada Dormideira. Era o lugar onde os viajantes gostavam de parar para dormir. Em algumas regiões há a tendência de se dizer "drumideira".

Dormir - vb. Do latim dormire = dormir, entregar-se ao sono, repousar na inação. O povo tem muitas expressões com o verbo dormir: dormir no Senhor = morrer; dormir no ponto = ter grande distração; dormir na pontaria = fazer pontaria muito vagarosamente; história para boi dormir = história, desculpa que não convence; dormir com as galinhas = deitar-se muito cedo à noite.

Drama - s. F. O primeiro sentido do termo é: qualquer representação teatral, geralmente, encenada por grupos amadores; brincadeira de crianças, simulando a representação teatral. Nesse sentido é sinônimo de "exagero", como na expressão: "Ela de tudo faz um drama!".

Durafogo - s. M. Aglutinação da expressão: "duro a fogo". Usada para designar um tipo de fumo resistente ao fogo, que se consome muito lentamente. Mas o termo é empregado também para designar o indivíduo "mau pagador". Foi registrado por Leonardo Mota, no livro: "Cantadores".

Dureza - s. F. Do latim duritas = dureza ou energia, rispidez ou mesmo grosseria. Essa palavra é usada uma única vez por Camões nos Lusíadas: "A nossa história seja, pois dureza" (Canto VI, Estr. 41. Ao passo que a palavra "duro" é usada nada menos que 78 vezes. Um repentista improvisou: "Eu pego qualquer dureza, / pois não escolho trabalho, / quando acho coisa firme / aí então me estraçalho" (Franklin Maxado).

Duro - adj. Do latim durus = duro, forte, resistente. Desse primeiro sentido o termo ampliou-se para valente. A palavra "duro" aparece em várias expressões populares: dar um duro = trabalhar muito; osso duro de roer = algo custoso de se superar ou vencer; duro na queda = difícil de ser vencido; duro que só toco de roça nova. Leonardo Mota fala dessa palavra, em "Cantadores".

Égua - s. F. Do latim equa = égua, que é a fêmea da espécie cavalar. No português arcaico e nos fins do século XIX essa palavra era escrita com "o": égoa. Parece que, como se pronunciava égua, os dicionários passaram a grafar égua. O valioso dicionário de Frei Domingos Vieira (1873) já traz "égua", mas ali se diz: veja égoa. É uma palavra semiobscena usada como insulto, menosprezo e mesmo ofensa, quando se diz a outrem "seu égua!". No Ceará ouvia-se com frequência a expressão: "arre égua!". Seu significado oscila entre admiração, chateação, desprezo ou mesmo revolta. Não raro ouve-se o verbo eguar = andar sem fazer nada, flauteando bestando.

Eita-pau! - Expressão de admiração, de entusiasmo ou mesmo de espanto. Em 1982 eu estudava na Universidade de Lovaina (Bélgica) e terminada a guerra das Ilhas Malvinas (ou Falklands), o Diretório Acadêmico promoveu dois debates sobre essa insana guerra, com Secretários de cada uma das Embaixadas (Argentina e Inglaterra), em um dia diferente. No dia do Secretário da Argentina, os estudantes argentinos tiveram uma acirrada discussão com ele e exigiram que o embaixador fosse outro dia explicar-se com eles. Um brasileiro gritou bem do fundo do auditório: "Eita pau!". Depois eu soube que o embaixador não aceitou ir conversar com os estudantes.

Ema - s. F. Termo de origem controversa. Frei Domingos Vieira diz que vem do árabe neôma. Antenor Nascentes diz que vem do molucano (língua das Ilhas Molucas), emeu, eme ou samu. É uma ave brevipenada, de longas pernas, de pés com três dedos e bico largo, um pouco menor do que o avestruz. Ela não voa, mas usa as asas para desenvolver uma velocidade considerável. As asas são usadas também como defesa. Nos autos populares: bumba meu boi, (cf. Acordo Ortográfico, (Base XV, 6) não tem mais hífen) e Reisado. A ema é um personagem solitário, em que um figurante endossa uma dessas aves. Gustavo Barroso cita esse figurante em "Terra de Sol" (1912).

Embira - s. F. Fibra extraída do córtex de plantas. A embira serve para amarrar volumes e para fabricar cordas, que são muito usadas no sertão. Uma destas plantas é o sisal. No Brasil, entre os maiores produtores, está o estado da Bahia.

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