Coluna

Frei Hermínio Bezerra: O sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 26.12.2016

Hoje eu indico: capenga; capeta; capim, com seus 377 tipos; capiroto; capivara; caquear, sinônimo de tatear; caramuru, com seus dois sentidos; carão e carapina.

Capenga - adj. Termo de origem africana: kikongo = kiapenga; kimbundo = kimpenga e do umbundo = okupenga. Todos com o sentido de: torto, desajeitado, andar manquejando. No nordeste além desse sentido, diz-se capenga referindo-se a um serviço mal feito ou mal acabado. Cognato: capengar = coxear, andar arrastando uma perna.

Capeta - s. M. No nordeste é uma das designações eufêmicas usadas no lugar de dizer: cão, diabo, maldito, satanás... O mesmo termo é usado referindo-se a um menino muito levado, cabeçudo e irrequieto.

Capim - s. M. Do tupi ka'pi = erva, feno, palha, mato em geral. É a denominação comum de diversas plantas da família das gramíneas e das ciperáceas. Há grande variedade de capim: de capim-açu... A capim zaranza, o VOLP traz 377 tipos de capim. O nome aparece pela primeira vez em Antonil, no Diálogo das grandezas do Brasil (1618). Depois em José de Alencar, Bernardo Guimarães, Taunay, Franklin Távora. Coelho Neto, Machado de Assis, Afonso Arinos, Lima Barreto e outros.

Capiongo - adj. A origem não é muito clara, mas pode vir do banto, capiango = triste, sisudo, macambúzio. A dificuldade é que existe no banto o verbo capiangar = surripiar, furtar com destreza. No sertão o termo é usado como tristonho, abatido, deprimido... Domingos Olímpio usa o termo em Luzia-Homem. João Clímaco Bezerra escreve: "Zeca Vaqueiro entristecia capiongo. Errava pelos roçados meio entristecido" (Sol Posto).

Capiroto - s. M. Nome aplicado ao demônio no interior do nordeste. É também designativo de um menino muito levado e traquino. Esse nome foi registrado no sertão por vários pesquisadores: Antônio Bezerra, em Aves de arribação; Leonardo Mota, Gustavo Barroso e outros. Ele está expressão: "Ele tem pauta com o capiroto!".

Capivara - s. F. Do tupi capi'uara = capivara, de ka'pii = capim + uara = comedor, portanto, comedor de capim. Mamífero da ordem dos roedores, da família dos hidroquerídeos. Ele vive próximo a rios, lagoas e pântanos. A notícia mais antiga sobre esse animal foi dada pelo Pe. Anchieta, em carta de 1560, em latim: "Sunt et alia animália ex genere amphibio, quae capivara hoc est, herbas pascenta nominantur" = existem outros animais anfíbios, como o que se chama capivara, que come capim". Mais tarde Fernão Cardim (1584) chama a capivara de "porco d'água".

Capoeira - s. F. Do tupi caa + puera = capoeira = o que já foi mato. No sertão a capoeira é uma antiga roça, ou local onde se cultivou milho e feijão, por um ano ou mais, que se deixa para que o mato cresça e o solo se recupere e os pequenos animais nativos da região voltem. Os indígenas, em geral, mudavam de localidade a cada 30 anos de permanência, para deixar a terra se recuperar. Cognato: capoeirão = alto matagal.

Capote - s. M. Nome de origem onomatopaica, de uma ave doméstica denominada galinha da Angola; guiné e tôfraco. Sua carne é muito apreciada no nordeste. O termo tem outros sentidos: a) dar ou levar capote é ganhar ou perder no jogo do baralho com uma vantagem igual à metade dos pontos, ou maior; b) vencer com larga diferença os colegas nas tarefas da lavoura: plantar, limpar e colher legumes; c) na farinhada é raspar a metade da casca da mandioca e passar a outro para finalizar. Essa técnica adianta o serviço.

Capuxu - s. M. É uma espécie de marimbondo preto que produz um saboroso mel. Quase sempre em pequena quantidade. Ele é muito valente e constrói sua casa no chão quase sempre perto de formigueiros, por isso, é pouco incomodado pelos tiradores de mel.

Caquear - vb. De origem não esclarecida, podendo ser onomatopaica. O termo designa o ato de procurar uma coisa às cegas, às apalpadelas, seja porque não se consegue ver pela falta de claridade, ou porque o objeto está oculto entre panos, por exemplo. Esse verbo parece ser a corruptela de tatear. Domingos Olímpio usou o termo em Luzia-Homem.

Caramuru - s. M. Do tupi karamu'ru = caramuru. O termo designa um peixe do mar da família dos murenídeos, como a moreia. Fernão Cardim (1584) e Gabriel Soares de Sousa (1587) citam esse peixe. Os índios deram o apelido de Caramuru ao português Diogo Álvares, por ele ter escapado a nado, de um naufrágio na costa da Bahia, em alusão ao peixe do mesmo nome. Santa Rita Durão escreveu um poema épico com esse nome Caramuru. No período da Colônia o nome designava os portugueses e europeus que viviam no Brasil.

Carão - s. M. De origem desconhecida, o sentido mais comum do termo no nordeste é: repreensão forte, ralho, reprimenda. Diz-se muito "passar um carão", "levar um carão". Além desse sentido há uma ave que tem esse nome, cujo canto onomatopaico é sinal de chuva, segundo a crendice no interior. Luiz Gonzaga gravou a música Pássaro Carão, composta em parceria com José Marcolino.

Carapina - s. M. Do tupi kara'pina = carapina, carpinteiro. O termo é encontrado na literatura desde o início do século XVII. Ainda hoje ouve-se muito no interior, talvez por ser mais simples do que carpinteiro. O irreverente poeta baiano Gregório de Matos escreveu: "Mecânica disciplina / vem impor por derradeiro / o professor marceneiro / ao pecador carapina" (Poesias). José de Alencar, Monteiro Lobato e José Lins do Rego, entre outros, usaram essa palavra. Curiosidade: carapinima significa pintado, malhado.

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