Coluna

Frei Hermínio Bezerra: O sentido das palavras

frei-herminio

Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 19.12.2016

Na coluna de hoje indico as palavras: cancão, ave da caatinga; candomblé; cangaço, termo bem nordestino; cangapé; cangote; caninana, que tem sentido figurado; canindé e cantador, uma das atividades que, segundo alguns, remonta à antiguidade grega.

A coluna deseja a todos os seus leitores, os assíduos e os ocasionais um Feliz a abençoado Natal. Que Jesus Menino traga muita paz e bênçãos para todos.

Cancão - s. M. A etimologia é controversa, mas parece ser uma anomatopeia do som emitido por essa ave muito comum no nordeste e que sempre está em bandos, que acuam cobras, pequenos animais e, às vezes, até pessoas, emitindo um som estridente que soa como "can" ou "quem", por isso alguns os chamam de "quem-quem".

Candomblé - s. M. Do kimbundo kandombele = rezar, invocar, pedir algo pela intercessão dos deuses e também o local onde se realiza o culto. É o culto e festa religiosa dos negros jeje-nagôs na Bahia, mantida pelos descendentes mestiços. Há uma variação de denominações: Macumba, (no Rio de Janeiro); Xangô, (em Alagoas e Pernambuco), (Cf. Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore). Popularmente, o local da celebração é chamado Terreiro de Candomblé. Há o chamado "candomblé de caboclo", no qual há influência de heranças indígenas,

Cangaço - s. M. Gênero de vida dos bandoleiros que até quase o final da primeira metade do século XX infestavam grande parte do nordeste (fora, o Maranhão e parte do Piauí). O cangaceiro é o que vive atacando, roubando e matando, portanto, é bandido e salteador. É uma realidade complexa e são muitas as análises: Heróis e bandidos (Gustavo Barroso); Cangaceiros e Fanáticos (Rui Facó); No tempo de Lampião.

Cangalha - s. F. O termo existe no kikongo, kangala = cesto posto em lombo de burro para transportar galinhas e mantimentos. Já no sertão do nordeste a cangalha é uma armação de madeira com um acolchoado que se põe no lombo do burro ou do jumento, na qual se dependuram jacás (um tipo de cesto) onde se carregam cereais e outros mantimentos. Um ditado diz: "Quem nasceu pra cangalha não dá pra cela".

Cangapé - s. M. É um golpe dado com o pé, ao mergulhar, como brincadeira, para assustar o companheiro. Alguns chamam de pernada e mesmo cambalhota, embora essa última não seja dada na água. O nosso escritor João Clímaco Bezerra usou o termo: "Dei cangapés ruidosos, como no tempo de menino, e nadei um bocado" (Sol Posto).

Cangote - s. M. É o mesmo que nuca, região occipital. Essa palavra é usada em muitas expressões: Ele é o cangote duro = é resistente, valente; Pisar no cangote de alguém = dominar, humilhar, sujeitar; Baixar o cangote = humilhar-se ou arrefecer o ânimo. Cognato: escangotar = desfalecer, ou adormecer profundamente, a ponto de virar o pescoço para trás.

Caninana - s. F. Do tupi kani'nana = caninna. Cobra não venenosa, mas tida como muito agressiva. Segundo os velhos sertanejos, ela dá saltos espantosos que parece voar. Ela é atraída pela cor avermelhada. A notícia mais antiga sobre esta cobra está em Fernão Cardim, que diz: "... É toda verde e de notável formosura" (Terra do Brasil, (1584). Ela é citada por outros: Gabriel Soares de Souza (1587); José de Alencar (1865); Bernardo Guimarães (1971); Inglês de Sousa (1888) e Jorge de Lima (1935).

Canindé - s. M. Do tupi kani'ne = Canindé. Ave da família dos psitacídeos, de plumagem azul e verde com penas amarelas nas asas e ao redor do bico. A notícia mais antiga sobre essa ave parece ser a de Gândavo (1576). Diz ser uma ave "estimada pelos nativos". Gabriel Soares de Souza (1587), em Notícia do Brasil, também dá informações sob sobre essa ave. O Pe. Luis Figueira (1608) diz que é ave de "convivência doméstica". Frei Vicente de Salvador fala de cinco ou seis espécies de papagaios, incluindo o Canindé. Frei Claude d'Abbeville diz: "...Papagaio completamente azul e como que cerúleo no dorso, tem o ventre inteiramente amarelo". Autores como Rocha Pita, José de Alencar, Franklin Távora e Mário de Andrade, referem-se ao papagaio Canindé.

Cantador - s. M. Do latim cantare, que é um frequentativo de canere = cantar, celebrar com cânticos, exaltar, louvar. É o aedo sertanejo, que vive empenhado em cantorias e recitações, como na Grécia antiga, que chegou ao Brasil depois de um longo estágio na Provença, (sul da França) e na Galícia, (norte da Espanha), da qual nós herdamos influências linguísticas, usos e costumes. A cantoria é um duelo poético, ao som da viola, onde os duelistas mostram a própria capacidade de improvisação rimada e de acuidade mental. Luis da Câmara Cascudo escreve: "Curiosa é a figura do cantador. Tem ele todo o orgulho do seu estado. Sabe que é uma marca de superioridade ambiental, um sinal de elevação de supremacia, de predomínio. Paupérrimo, andrajoso, semifaminto, errante, ele ostenta, num diapasão de consciente prestígio, os valores da inteligência inculta e brava, mas senhora de si, reverenciada dominadora" (Vaqueiros e Cantadores, (1939), pp. 87-91).

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.