Coluna

Frei Hermínio Bezerra: O sentido das palavras

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Frei Hermínio Bezerra

caderno3@diariodonordeste.com.br

00:00 · 28.11.2016

Na coluna de hoje indico: cafundós; cafuné, um dengo apreciado pelas crianças; caiçara; caipira; caipora; caititu, com seus dois significados; caipora; caititu, também com dois sentidos e cajá, uma saborosa fruta.

Cafundós - s. M. Pl. O termo no interior é usado para referir-se a um lugar muito distante, pouco habitado e de difícil acesso. Muitas vezes diz-se: "cafundós de Judas", cafundós onde Judas perdeu as botas... O termo aparece muito na literatura de Cordel. Uma expressão correlata é "caixa-prego" = um lugar, distante e ermo.

Cafuné - s. M. Esse termo, muito popular no nordeste, tem duas origens possíveis: seria do conguês nkafuna = golpe, pancada, ou então do verbo kafuna = amar, querer. O cafuné, na verdade é um dengo. Trata-se de um movimento de carícia que se faz com a primeira falange do polegar, com a ajuda do outro dedo, pressionando o couro cabeludo, com um pequeno estalo, que simula a matança de um piolho na cabeça da criança.

Caiçara - s. F. Do tupi kaai'as = cerca de ramos. Era uma cerca tosca, construída com galhos e ramos entrançados, usada pelos indígenas para defesa e proteção de suas tabas, seus currais, etc. O termo passou - por extensão - a designar qualquer cercado de construção rústica. O termo já aparece em Notícia do Brasil (1587). Segundo o historiador Raimundo Girão, o primitivo nome de Sobral era Caiçara.

Caipira - s. M. Do tupi caipira, que seria uma corruptela de caipora, com a intercorrência da influência de curupira. Mas essa origem é questionada por alguns. O termo designa indivíduo matuto, roceiro, rústico, tabaréu. O registro mais antigo na literatura parece ser o de José de Alencar, em Til (1872). O Visconde de Taunay (1843-1899) usou o termo em Inocência (1872). São muitos os autores que usaram essa palavra: Bernardo Guimarães, Aluísio Azevedo, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, Graça Aranha... José Lins do Rego registra um jogo de azar, em que se utiliza apenas um dado, denominado caipira: "Os homens ficavam jogando caipira, na frente, que isto de rezar era só para mulheres" (Usina, 1936). No diminutivo, caipirinha, o termo designa uma bebida genuinamente brasileira, bem apreciada em todo o mundo, pois pode ser muito fraca, forte e muito forte..., além de ser dosada com mais ou menos limão e/ou açúcar. Por isso, ela é feita sob medida, para os mais diversos paladares.

Caipora - s. M. Do tupi kaa = mato + porá = habitante. Com este nome os indígenas designavam um ente sobrenatural que habitava as florestas e trazia infelicidade para quem o via. Por extensão, o temo é usado em relação a uma pessoa de quem se diz que traz má sorte a seus semelhantes, por ser azarento. O termo é registrado na literatura desde a segunda metade de 1700. José de Alencar, em Minas de Prata (1965), Taunay, Bernardo Guimarães, Franklin Távora, Couto de Magalhães, Raul Pompeia, Machado de Assis, Domingos Olímpio, Mário de Andrade, José Lins do Rego, Graciliano Ramos.

Cair - vb. Vem do latim, cadere = cair, tombar, ruir, deitar-se por terra. Mas no popular, "cair" é usado em vários sentidos mais ou menos correlatos: a) ser logrado = cair na cantada, no conto do vigário, na esparrela, na arapuca, no papo... B) calhar, dar muito certo = cair a sopa no mel; c) censurar, criticar, explorar = cair em cima; d) fugir, escapar = cair fora; e) ser mal-falado = cair na boca do mundo; f) ser bem aceito = cair nas graças do patrão; g) fazer adesão firme a algo = cair no cangaço, cair na dança; cair no choro, cair na gandaia, no sono... Como se percebe, o termo é rico em significados.

Caititu/caitetu - s. M. Do tupi cae = mato + suu = caça. Com esse nome dos indígenas designavam um tipo de porco selvagem que eles caçavam nos matos. O registro na nossa literatura dá-se desde o início de do século XVII com Antonil, no Diálogo Grandezas do Brasil. Muitos outros autores usaram o termo: José de Alencar, Machado de Assis, Castro Alves, Bernardo Guimarães, Inglês de Souza, Afonso Arinos, Euclides da Cunha, Coelho Neto, Monteiro Lobato, Graça Aranha, Graciliano Ramos... Com essa mesma palavra designa-se a peça do engenho de fazer farinha, constituída de um cilindro dentado que girando a uma certa velocidade tritura a mandioca transformando-a em massa para fazer a farinha. O nome advém do fato que o sistema giratório que o aciona faz um barulho semelhante ao do porco selvagem chamado caititu.

Caixola/cachola - s. F. No popular esse termo é empregado para designar a caixa do juízo, o bestunto, a cabeça no sentido de cérebro: "Ele não tem juízo na caixola". Rodolfo Teófilo usou o termo: "Zé Pedro cala essa boca, / Tua caixola está oca / Vazia de entendimento" (Lira Rústica).

Cajá - s. F. Do tupi, aka'já = cajá. Nome de uma planta da família das anacardiáceas e seus frutos. A cajazeira é comum em grande parte do nordeste do Brasil. Planta conhecida desde a segunda metade do século XVI, citada por Gabriel Soares de Sousa, em Notícia do Brasil (1587). Muitos outros escritores a citam: Antonil, Rocha Pita, José de Alencar, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, José Lins do Rego...

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