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Erilene Firmino: vida equilibrista

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 15.09.2017

Mudar é bom, saudável até. Mudanças, porém, são desnorteadoras de gente. Independente de surgirem em decorrência de nossos esforços ou se devido ao fluxo natural da vida, costumam provocar incômodos e desequilíbrios. No primeiro caso, as alterações vão sendo construídas ao longo do tempo, bem devagarzinho. São pensadas, organizadas, cumprem etapas até a ruptura - o fim de um ciclo, o começo de outro -, caminham sobre o alicerce do que virá depois e, até por isso, não trazem muito estranhamento para o processo de adequação ao novo. O segundo caso é o mais danoso. As mudanças ocorrem de maneira tão absoluta e inesperada que, além de ficar tudo fora de lugar, não nos possibilitam, a curto prazo, perceber qualquer indício de readequação no horizonte.

E nós que, por mais aventureiros, gostamos mesmo é de saber por onde e como vamos - nos sentirmos seguros, mesmo na insegurança - passamos bom tempo meio perdidos na esperança equilibrista de que as coisas acabem se ajeitando, de que tudo dê certo, de que existam dias de chuvas, outros de tempestade, mas cientes de que, cedo ou tarde, o sol nascerá. É a vida, muitos dirão. E eu sei disso. Sei, principalmente, como não posso fazer nada além de submeter-me a ela. Saber, entretanto, não me impede de fazer qualquer sacrifício ou loucura para suavizar sofrimentos, não me estender muito chorando e lamentando. Tentar aprender o máximo em cada instante, independente de sorrir ou chorar. Então, em períodos de desequilíbrios, trato logo de arrumar qualquer porto seguro para me ajudar na travessia. Criada em meio a fragilidades, fui construindo ao longo da vida, esse potinho de ouro.

Trata-se de um baú imaginário guardado dentro de mim, onde guardo diferentes peças de origens várias, mas inerentes à minha pessoa. Possui diversas grandezas que não falham nunca, são meu porto seguro. Elas ficam guardadinhas ali, à minha disposição, para os momentos de eu carecer atenção. Quando o desequilíbrio me desnorteia, busco-as. Reconheço em qualquer uma, naquele instante, aspectos imutáveis do meu mundo - a minha essência como pessoa - e a eles me agarro para me sentir minimamente segura. O conhecido provoca em nós essa sensação. No meu baú, aliás, algumas peças são bem concretas, outras subjetivas. Todas, porém, costuradas com o meu jeito de ver a vida, minha forma de pensar e de ser. Nesse baú, só entram grandezas infinitas: gente do bem, música, literatura, as estrelas no céu, as borboletas, os passarinhos. Tudo isso, por mais diferente um do outro, dizem de mim. Sou eu. Tendo-os, tenho-me.

Então, quando a situação está ruim, e foge ao meu controle resolver, debruço-me sobre o baú para ver qual grandeza pode me ajudar. Sempre retorno com a mais bonita nas mãos para me auxiliar: umas estrelinhas, uns amigos poucos, uns versos, borboleta, passarinho, um pensamento ou princípio forte. Pode parecer pequeno isso, mas quem carece, sabe o quanto qualquer centelha de luz pode parecer fogueira. Faço uso dessas peças não é para sempre de jeito algum. Só mesmo enquanto me fortaleço, encontro alguma ordem no andar ziguezagueado. Viver no conhecido sempre, sem qualquer percalço, é sem graça. Estar o tempo inteiro em corda bamba, entretanto, é horrível. Desestrutura a pessoa.

Na verdade, incômodos e desequilíbrios são rotinas da vida. As mudanças somente os potencializam. A razão é bem simples: para algo começar, é necessário um outro algo terminar. A agonia se dá no intervalo entre as duas pontas. Apegados ao estágio anterior, não queremos deixá-lo ir; em simultâneo, tememos o que está por vir. O receio pelo desconhecido se repete mesmo quando a busca pela mudança é nossa, mesmo quando vamos bem devagarinho, avançando como criança em seus primeiros passos: tateando, cai aqui, cai acolá.

O medo pode paralisar. Às vezes, mesmo estando ruim o nosso conhecido, preferimos essa situação a qualquer outra. Por dominarmos os segredos da casa, o que é bom, o que é ruim, sabemos como agir em cada situação. É dolorido no começo, mas com o tempo, acostuma-se com o doer. É uma postura muito triste para se adotar por toda vida. Não funciona para mim. Não me importa para avançar, ter de aprender a caminhar na corda bamba sem sombrinha. Se complicar demais, não volto. Dou um jeito de concluir a travessia - sei, lá, de repente, seguro as cordas com as mãos, sigo lutando para não cair - construo outra mudança para mim.

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