Coluna

Erilene Firmino: Travessias seguras

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 26.05.2017

Eu gosto muito de tranquilidade e mansidão. Sou capaz de passar horas quietinha, só ouvindo música ou em silêncio contemplativo. Ao mesmo tempo, sou elétrica. Faço mil tarefas ao mesmo tempo, sem pestanejar e, também, sem me dar conta de as estar fazendo simultaneamente. Para transitar entre essas dualidades, sem enlouquecer, criei uma chave liga desliga para mim. O acionamento está relacionado com o ambiente. Se no trabalho ou me divertindo com amigos, sou elétrica. Se sozinha, seja em casa ou na rua, tranquila. Às vezes, misturo um pouco, para cada ambiente me ter como um todo, mas é importante demais esse meu conseguir separar. Ligar e desligar é conquista feita após muitos anos de vida e alguns outros poucos de terapia.

Esse preâmbulo tem um objetivo: fazer-me compreender fácil ao dizer sobre minha mente apressada, minha lerdeza e, principalmente, como consigo, sendo dependente das novas tecnologias, não abrir mão das antigas. Ora, eu aprendi a digitar nas máquinas de datilografia! E tenho ainda a minha Olivetti Lettera verdinha. Ela, porém, está guardada como lembrança querida. Eu não consigo mais viver sem acesso à internet, sem meu celularzinho, sem um computador em casa. Navegando por este mundo das novas tecnologias, aliás, vivo, hoje, um novo desafio. Meu PC quebrou e comprei um notebook. Não consegui ainda me sentir completamente à vontade com ele e nem abandonar o mouse. Para escrever pouquinho, o celular dá conta, mas, na maioria das vezes, preciso de um teclado sobre a mesa, em meu colo, sobre a cama. Meu pensamento flui para suas teclas.

Não bastasse isso, não suporto ficar usando o tátil. Para as ações mais rotineiras como ir digitando o texto, de forme corrida com o pensamento, dá certo. Quando, porém, preciso cortar, colar, ir atrás de um acento ou pontuação mais complicados, corro para o mouse. Sinto-me mais em casa com ele, o trabalho flui mais rápido. Depois, aborrece-me tanto arrastado de setinha para chegar a um caminho, quando com apenas um toque no mouse consigo chegar lá. Meus dedos mexem-se inseguros sobre material tão sensível ao toque. Para resolver o imbróglio, não hesitei. Peguei o mouse do meu PC quebrado e coloquei na entrada USB do notebook. Estou toda faceira, tateando neste novo, ciente do que estou tentando fazer: quase como num passe de mágica, como dizem os antigos livros, transformei meu mouse numa muleta.

Sim, ele vai me ajudar neste difícil processo de transição de uma mulher bastante analógica, para uma digital. Vai me servir enquanto não me acostumo com este notebook tão novinho e bonitinho e cheio de funções e adorável, mas que não é o meu PC antigo. Devo confessar ser esta a primeira vez que uso como muleta um mouse, mas não a primeira a usar muletas, ou melhor, apegar-me a um objeto ou sentimento para me ajudar a fazer travessias. Como habitam em mim vontades muito contrastantes - anseio por mudanças, novidades e adoro uma rotina - costumo usar bengalas para ir de uma a outra. São muletas emocionais, claro. Vou andando sem soltar a mão de alguém ou algo, entende? Esticando os dedos até onde posso. Avanço, mas levo alguma segurança comigo.

Ou seja, meu mouse virou muleta, mas é apenas uma delas. Usei muitas já. Para todo tipo de precisão. Apenas por um tempo uso. Até me sentir mais à vontade no novo. As bengalas emocionais servem para qualquer problema, mas carecem cuidado, são desculpas. Nos amarramos a elas quando estamos sem coragem de fazer. Independente de sua forma ou cor, se físicas ou psicológicas, as muletas possuem função específica. Ajudam quando a gente precisa de suporte para caminhar, para avançar, para qualquer travessia - do incômodo para o alivio, no caso das bengalas para problemas motores - mas tudo é feito de maneira mais lenta, parando ou retardando o passo. As emocionais, por não serem visíveis, são muito mais perigosas. Podemos até viver com elas sem nos darmos conta.

Com as físicas não há esse risco e dependendo da dificuldade motora de quem a utiliza, a bengala pode ser essencial em toda sua vida. Não é o caso das muletas emocionais. Nós podemos usá-las por um tempinho, mas é importante nos libertarmos. Enquanto a utilizamos, devemos ir nos preparando para viver sem. Se não abrirmos mão delas, corremos o risco de ficarmos dependentes sem realmente carecer. Sabe aquela história de o desapego trazer bons fluidos para a vida? Não se refere apenas a objetos. Os sentimentos, as dependências, as bengalas, quando abrimos mãos de tudo isso, nos tornamos mais leves também.

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