Coluna

Erilene Firmino: Sem comparações

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 17.03.2017

Sempre fui muito tímida. Criança, costumava me esconder quando chegava visita em casa. Ia para trás das plantas no quintal ou entrava no armário do quarto, sentava sobre as roupas, fechava as portas, ficava lá tranquila. Nunca tive medo do escuro e muito menos de ficar só. Era capaz de passar a tarde todinha escondida, caso fosse esse o tempo de permanência da visita. Quase sem respirar para não ser notada, permanecia horas esperando a pessoa ir embora. A minha intenção era me tornar invisível para os estranhos, não lhes chamar atenção. Enquanto estava nos meus esconderijos, ia para bem longe dali. Contava-me histórias, criava outros mundos, voava. Era bom.

Minha família detestava isso, mas não conseguia me fazer mudar. Também não me entregava. A cumplicidade com minha matutice talvez fosse por nunca termos sido muito sociáveis. As visitas aconteciam mais porque como havíamos morado em muitos lugares, vez ou outra, os amigos de meus pais, apareciam para conversar, matar saudades. Meus irmãos agiam diferente. Pelo menos a maioria não se importava em ficar na sala acompanhando a conversa ou correndo entre os cômodos da casa, jardim e quintal. Eu não. No meu mundo, as pessoas conhecidas, a rotina da casa, me traziam segurança. E por mais alegria de meus familiares com suas visitas, a mim causavam incômodo. A presença delas em nossa casa mudava o dia todo. De uma hora para outra, a gente tinha que se transformar na melhor criança do mundo, educada, cabelos arrumadinhos, vestidos limpos, voz baixa.

Aqui cabem dois nuncas. Eu nunca consegui atingir esse perfil ou me adequar a ele. E eu nunca fui a melhor do mundo em nada. Não bastasse a timidez me paralisar, a aparência e jeito de ser não ajudavam. Era muito magra e meu cabelos desde aquela época são incompatíveis com arrumação. Finos e encaracolados, voam com tanta facilidade que, às vezes, até receio irem embora. Então, com tantos senões em mim, preferia ficar invisível. Se não conseguisse me esconder, meus olhos grudavam na pessoa, prescrutando-a. Nunca lhes perguntei se me preferiam perto ou escondida. Eu, entretanto, como eram as mesmas visitas sempre, com o tempo, fui gostando de suas presenças. Elas traziam novidades para mim.

Outros mundos carregavam consigo e, de cada um, eu ia conhecendo um pouco. Queria saber de outros mundos, para o caso de o meu acabando - sim, eu temia isso - ter para onde ir. Não sei, mas talvez ali adivinhasse as tantas mudanças pelas quais passamos em uma só vida. Independente disso, fato é que me acostumei com eles, embora não tenha se dado o contrário. Primeiro, meus olhos prescrutadores os incomodava. Depois, amedrontava; por ultimo, insultava. Meu jeito de sorrir quando as palavras faltavam ou de erguer a cabeça em desafio quando me pediam para baixar ou o arquear a sobrancelha diante de qualquer brincadeira besta ou insulto, não combinavam com uma meninazinha. Depois, não condizia com uma mocinha. Tais inadequações seguiram conforme eu adentrava nas diversas faixas etárias de uma vida. Foi com esse sem jeito que cheguei até aqui.

Algumas décadas já se passaram desde a última vez de me tornar invisível para não incomodar alguém ou não chamar atenção para o meu pensamento, meus olhos prescrutadores, minha resposta sempre rápida. Não sei como se deu meu processo de autoconhecimento, como aquela meninazinha tímida se tornou tão brava, mas fiquei valente. Não me escondo mais. Hoje, mesmo quando me calo, quem está próximo sabe o que não estou dizendo. Meus olhos e semblante dizem. Às vezes, percebo incomodar com minha presença a um ou outro, mas não peço desculpas por ela. Eu fico. Aprendi a me sentir bem onde consigo entrar, mesmo sem encontrar por ali meus pares.

Essa altivez talvez a tenha conseguido nos meus esconderijos. Sonhando, podia ser qualquer coisa. Ou talvez, numa hipótese mais plausível, a adquiri enquanto caminhava. A minha estrada tem tantas curvas, altos e baixos que, às vezes, eu mesma me espanto de ter chegado. Também às vezes desconfio de o pulo do gato ter sido justo o incomparável. Eu sabia que era diferente dos meus amiguinhos, dos meus irmãos, das visitas, mas nunca fui marcada pela comparação.

Não ganhava ou perdia pontos lá em casa por ser matuta e meus irmãos não ou por ser silenciosa quando queria, ou aumentar o tom de voz diante de alguma necessidade ou ficar brava. O contrário também se dava. Éramos aceitos com nossas qualidades e imperfeições. Sem as comparações, não fiquei analisando se era menor, maior, melhor, pior, bonita ou feia. Apenas fui, apenas era, apenas sou.

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