Coluna

Erilene Firmino: Racionalidade às avessas

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 24.03.2017

Às vezes, tenho medo. Receio de até onde sou capaz de ir, quando me deixo levar pelo coração. Ele sonha muito, me conduz a lugares onde jamais supus chegar. Romântica, qualquer convite mais bonito é capaz de me fazer sair voando, mesmo sem asas. Se vou cair ou conseguir planar, deixo para descobrir no caminho. Sempre penso dar um jeito mesmo no mais aparente impossível. Há um pouco de insanidade em viver assim, mas eu preciso disso. Sou certinha demais, correta, cumpridora de obrigações e horários, quase um relógio funcionando bem - tic tac, tic tac, tic tac -, monótona.

Fazer uma loucurazinha aqui e outra ali é mais para alimentar a alma, lembrar ser capaz. Problema é o aperreio. Coração não aguarda melhor hora. É quando quer. Está nisso o imbróglio. Se um lado meu pretende soltar asas, um outro necessita pés fincados no chão. Cotidianamente, eu me apego à racionalidade para não sair tentando voar, sem saber. É mais um cuidado comigo. Careço âncoras, para não fazer loucuras primeiro, pensar depois. Aprendi cedo sobre a necessidade de tomar cuidado com as decisões baseadas somente na emoção, pois sem embasamento racional, as chances de não darem certo são elevadas a centésima potência.

Posso até ser ligeira quando decido algo, mas dependendo da relevância do tema, para eu chegar a um sim ou não, levo séculos. Então, se não atinjo meus intentos, paro um pouco para lamber as feridas, pensar em tudo de novo, ver se houve erro, onde e como foi, rever os passos para, ao fim, avaliar se adianta tentar novamente. Ou seja, volto lá para o início de tudo. Recomeço a caminhada tão devagarzinho que capaz de desistir no caminho. Sou frágil para a dor, principalmente, a subjetiva. Arranhões na alma me paralisam.

Ter cuidados com os desejos do coração é antinatural para mim. Sou emocional, instintiva, minha racionalidade é quase zero. Todos os dias luto por ela. Fico construindo motivos e razões, criando amarras. Tão constante faço isso que, às vezes, as pessoas até me acusam de pragmatismo exagerado. Eu mesma, há momentos de ligada no automático, esquecer estar tentando, pensar que sou. A racionalidade, entretanto, é exercício diário na tentativa de torná-la parte de mim. Eu queria ser mais objetiva, mais equilibrada, menos pavio curto.

Pensava o tempo ser capaz de organizar essa situação. Se não conseguisse acabar de uma vez, pelo menos reduzisse um pouco a velocidade da montanha russa. Acreditava serem capazes os cabelos brancos de trazer sabedoria, tranquilidade. As experiências irem me permitindo reduzir essa chama inflamável, esse sangue quente que mais parece rasgar as veias enquanto passa. Até agora, entretanto, estou no aguardo. O sangue esfriou só um pouquinho, mas, de resto, a afobação é a mesma. Por ser resiliente, até aguento um período bom até me espalhar. Esse momento, porém, sempre chega.

Vivo, então, permanentemente, entre o modelo desejado de pessoa - calma, educada, tranquila - e o que realmente sou. Pretendo paz, recolhimento, mas sou dramática, intensa, gargalho, chamo atenção. Há ainda pior. Carrego umas insistências maiores do que eu. Quando coloco uma ideia na cabeça, começo a me angustiar se não a vejo na prática. Entristeço, morro um pouco por dentro, deixo de ser. Se algo me incomoda não consigo fazer de conta estar tudo bem. Não consigo interpretar ser feliz, inventar uma vida supostamente perfeita. Aliás, odeio todos os supostamentes. Gosto é de definição.

Ser assim é complicado neste mundo concreto. Fica difícil até explicar a fé no que não existe, mas se sente. Eu sinto quando é a hora, eu sinto quando é o jeito, eu pressinto, eu vejo, visualizo tudo antes mesmo de existir, mas sentimentos são subjetivos demais para serem usados como prova, por isso, às vezes, caminho cabeça baixa, sabendo desacreditada. Só dentro do meu peito, a certeza batendo. Ainda assim prossigo até transformar o pensamento em realidade. É o jeito.

O coração é voluntarioso, mas não leviano. Não fica correndo de uma ideia para outra como se brincasse. A luta dele é para a gente ser feliz. Se estivermos bem, fica lá quietinho, como se hibernasse. Só se mexe ao perceber incômodos. Por isso meu viver em corda bamba. Todas às vezes, quando ele aparece com desejos novos, ao mesmo tempo em que não quero ir, preciso.

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