Coluna

Erilene Firmino: Quando não é sim

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 20.10.2017

Tenho algumas certezas. A do livro preferido, de adorar música, literatura, amar as pessoas e suas imperfeições - ter hora de aborrecer-me muito com elas também - ser jornalista. Sempre quis ajudar as pessoas. E Jornalismo cabia como uma luva à pretensão - saber a demanda, provocar a quem de direito em busca de solução -, tentar.

A gente sabe Jornalismo não ser assim sempre, mas quando consegue, é ele o meu. Para ser jornalista, entretanto, percorri longo caminho. E bem no meio da estrada, conheci o curso de Letras, me apaixonei: Língua Portuguesa, Literatura, Redação. Fui para as salas de aula, ensinei, encantei-me com os alunos, aprendi.

Foram quatro escolas, antes de o mercado jornalístico me tomar. Aconteceu quando estava no colégio Padre João Piamarta, o da Aguanambi.

Ensinava diariamente, das 7 horas ao meio dia, em turmas da 5ª série (hoje, sexto ano) ao 3º ano do Ensino Médio. Era minha segunda casa, os meninos todos meus. Os amava e brigava e brincava e aprendia e ensinava. Era cansativo, mas eu era feliz lá. Então, apareceu a oportunidade de passar o dia inteiro trabalhando em uma assessoria de imprensa e eu disse sim. Decidir ir embora foi por amor. Jornalismo sempre foi o meu sonho mais lindo. Hesitei, mas pedi demissão.

Estava pagando o Aviso Prévio, quando a coordenadora me avisou sobre a chegada do substituto: eu podia ir. Cai num pranto convulsivo, interminável. O choro surpreendeu a ela e a mim. Seria ele descabido, se a decisão de partir era minha? Ela repetiu algumas vezes enquanto eu chorava a falta de razão para o pranto. Questionava-me. Eu não sabia explicar. Só sabia repetir: os meninos, as crianças, os meninos. Será que o novo professor terá cuidado igual, o mesmo compromisso, o zelo? Será?

Não havia resposta nenhuma naquele instante. Eu não sabia justificar a minha dor, se ela tinha nascido por uma provocação feita por mim à minha vida. É complicado para os adultos, às vezes, esclarecer possíveis incoerências. Se pretende ir, se abre mão, porque hesitar e olhar para trás? Qual a razão da saudade e da vontade de ficar mais um pouquinho? Tomar mais um café, ficar brincando em território tão conhecido? Na época, era bem nova, não sabia muitos. Agora sei. Partir, deixar, não significa desamor, desquerer. A vida não é tão simples a ponto de cada não significar somente uma negativa.

Os nãos podem significar sim para outros aspectos mais pertinentes no agora quando é pronunciado. Eu precisava sair da escola, não de ensinar, não dos meninos. Pudesse, ficava com os dois, mas alguns sonhos não gostam de intersecção.

Assim, tenho vivido durante todos esses anos, sendo feliz com jornalista, mas vez ou outra recordando a professora que fui. Lembrando dos meninos. É assim a vida. Vai ser assim sempre. Ao darmos um passo para além de onde estamos, precisamos abrir mão de algo.

A gente não leva, mas guarda tudo no coração. E só vamos mesmo, quando é importante demais seguir. A gente se força, vamos arrasados. Entretanto nos puxa pela mão, a curiosidade pelo desconhecido, a absoluta necessidade de voar, um destino que mais escolhe a gente do que nós a ele. Eu sou assim. Sou eu essa pessoa que segue por necessidade de viver as outras possibilidades. Outro dia mesmo, saí da minha casa novamente. Deixei de ser jornalista de redação. No último dia, em cada olhinho e abraço queria ficar, mas adotei semblante forte, avancei. Depois de decidir, melhor não tontear.

Terceira vez em uma vida sai de casa: primeiro, foi da casa dos pais; depois, de ser professora; agora, a redação. Antes achava que, na vida, só havia um caminho. Íamos por uma estrada única e, no final, aparecia o "The End" em rostos felizes.

Ao descobrir não existir somente um lugar para a gente ser feliz, tenho me permitido ser o que quiser. Careço isso. Aliás, conto um segredo: não nasci passarinho, mas desconfio. Em algum momento antes de nascer, ou fui passarinho ou tive asas ou posso ter passado pelo mundo das Ideias de Plantão - onde tudo é perfeito e imutável - ter bebido aquela água, ter sobrevoado os mares, ganhado o céu - e, aqui, vivo com saudades de lá.

Às vezes, sinto coçarem as bases de minhas asas, nas costas. É o sinal de precisar voar. Quase sempre, a segurança ganha. Fico por ali, suportando anos os incômodos, fazendo de conta sobre a inexistência deles. Às vezes, raras as vezes, na verdade, as asas ganham. Voar torna-se a única opção.

Nunca sigo completamente certa e contente, mas mesmo insegura me jogo. Sem saber quase nada do novo caminho, avanço. Afinal, como Gide disse, o diabo desta vida é que entre cem caminhos, temos de escolher apenas um e viver com a nostalgia dos outros 99.

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