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Erilene Firmino: os tortuosos caminhos para ser livre

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 01.09.2017

Não sei andar de bicicleta. Adulta, senhora de minhas vontades, desconheço o básico sobre um de meus objetos de desejo: o prazer do corpo equilibrado sobre duas rodas, rosto acariciado pela brisa, cabelo ao vento, avançar pelas ruas da cidade. Nunca vivi essa imagem. Ela, porém, é nítida em minha mente. Tanto que, às vezes, chego a duvidar se é real mesmo esse meu desconhecimento. Não me surpreende a aparente incoerência. A vida inteira quis tanto andar de bicicleta que o desejo parece ter se solidificado em minha alma.

Mentalmente, já me vi tantas vezes pelas ruas, avenidas, pedalando, pedalando, pedalando, que quase me lembro como foi ontem o passeio, sem ele ter ocorrido. Tomara não ser insanidade. Aliás, espero essa história toda, ser somente um desses desejos que de tão antigos se incorporam na gente. Ficam por ali esquecidos em nós e, vez ou outra, nos deparamos com ele. Loucura ou não, fato é que caminha comigo essas vontade e imagem, enquanto minha bicicleta espera por mim, encostadinha na parede. A uma primeira vista, pode parecer tolice diante de tantos problemas no mundo, no nosso país e, no meu próprio mundinho, estar eu a pensar em andar de bicicleta. Mas calma, não nos apressemos em julgamentos!

Minha necessidade de aprender a andar de bicicleta hoje é simbologia. Houve o tempo de eu querer pedalar pelo desejo de fazer (infância, adolescência), o tempo de ter necessidade de me sentir incluída (juventude). Hoje, porém, poder usar o veículo ultrapassa quaisquer limites de velocidade ou de ter o controle sobre todas as coisas, como humana que sou. A minha questão é liberdade. Ao longo da vida toda, venho quebrando grilhões. Todos os que me prendem a qualquer situação ou pessoa, tenho rompido. Mantenho laços, não algemas. E mora nisso a minha necessidade ainda agora de aprender a pedalar. Na infância, tempo onde a maioria das pessoas, aprende a tocar esse instrumento, não me foi permitido.

Meus pais não queriam suas filhas montadas sobre bicicletas pelas ruas. Os meninos podiam. E eu criança era muito obediente. Na adolescência de minhas irmãs mais velhas, elas aprenderam escondido. E eu na adolescência continuava muito obediente. Não me aventurei no escondido. Ao chegar à juventude, já não me importava tanto com obediências, mas perdi o tempo, esqueci um pouco a vontade. Estudo demais, trabalho demais, livrarias, bares, muitas novidades em um mundo novo. O desejo de andar de bicicleta foi para o baú. Só recente, com essas discussões sobre mobilidade, tantas bicicletas nas cidades, me peguei com olhos pidões. O coração lembrou. Eu, entretanto, adulta, tropeço em um amontoado de senões.

Olha-me enviesada a sociedade. E, em simultâneo, eu mesma não me ajudo muito. Faltam-me tempo, paciência e coragem, nessa ordem. Na verdade, tão logo reacendeu a vontade e me vi livre para tentar, comprei a bicicleta linda. Subi, fui aprender na rua, cheia de boas intenções, rodeada de gente querida. Não consegui ir longe. Quando se é criança, os pais têm medo, a gente não. Adultos somos diferentes. Adultos sabem sobre o risco de cair, quebrar braço, perna, rasgar o rosto. Ficam tentando e pensando se vale mesmo o risco de ir beijar o chão para fazer valer um princípio. No meu caso, quando fui tentar, além de minhas preocupações, havia ainda um amontoado de outros adultos também cuidadosos.

Ora, mas se eu já tenho medo de um encontro traumático com o chão, com uma pessoa perto de mim gritando "cuidado", não consigo sequer sair do lugar. Eu paraliso. E para piorar, não tem bicicleta para adultos com rodinhas. E se tivesse? Será que eu usaria ou me prenderia no medo de ser tida como ridícula? Não sei. Quando algo se transforma em prioridade para mim, não me preocupo muito com a opinião dos outros. Eu vou atrás ou na frente, dependendo de como a situação se apresente. Na verdade, me transformo quando estou com um objetivo nas mãos. Posso passar anos somente maturando o desejo, construindo os alicerces para torná-lo possível. Tento incansáveis vezes, sem me preocupar com feridas ou arranhões. Desistir mesmo só após ter comprovação real que, realmente, não é para mim. A gente não pode ter, ser ou fazer tudo.

Ainda não é este o caso. Por hora, devido às tentativas frustradas, adiei meu intento. Parei o treino, vou atrás de novas estratégias, tempo para executá-las. Enquanto aguardo, minha bicicleta espera. Vez ou outra a olho, imagino diálogo: "Fique quietinha aí. Um dia a gente se encontra de verdade". E ela, como mora no meu mundo, nesse que ora é duro demais, ora parece recheado de poesia, parece me sorrir de volta. "Não se afobe não, que nada é pra já", cita Chico. Depois, lembra Eclesiastes. "Há tempo para tudo nessa vida". Saio de perto sorrindo: "a questão aqui, minha bicicletinha querida, é liberdade. E ela é sempre bem difícil de conquistar. Muito pior do que andar em você". Aguarde, eu volto.

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