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Erilene Firmino: O céu mora em mim

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 25.08.2017

Criança, brincava de nuvem. Manhãzinha, antes do sol arder na pele, deitava no chão de terra batida do quintal, ficava olhando o céu. Punha-me a acompanhar o movimento lento das nuvenzinhas, o voo dos pássaros, a copa das árvores mexendo ao sabor do vento. Sensação boa de estar em comunhão total com o universo sempre: a parte visível aos meus olhos, a outra que não se pode enxergar. Brincar de nuvem para mim era tentar adivinhar o que cada uma era conforme sua forma. Havia dias de ser livros; em outro, pássaros, gatinhos, bois, flores.

Passava muito tempo nessa brincadeira de adivinhar. Às vezes, me distraía encantada com o contraste entre o branco e o azul. Às vezes, esquecia de mim, ficava por tempo incontável deitada por ali. Só voltava muito depois. Era distração de infância. Primeiro dividida com os irmãos e, mais adiante, com as outras tantas pessoas cujos caminhos cruzaram com o meu. Independente de idades, elas também eram capazes de desconfiar de os bichos se esconderem lá no céu.

Como eu, enchiam-se de perguntas sem respostas. A gente nunca conseguia saber se realmente acertávamos na relação forma da nuvem/bicho, se os animais moravam lá por já terem vivido na terra ou se estavam no céu, aguardando o tempo de vir para cá.

Nesse caso, ficariam de longe observando o novo local onde iriam habitar, olhando aqueles que seriam seus vizinhos. Nunca chegamos a qualquer acordo para tais indagações, mas continuávamos nosso processo de contemplação. Parávamos o corpo, deixávamos a mente em absoluto comando. Conforme fomos amadurecendo, entretanto, o tempo escasso e o nosso encontro com os assuntos de maior relevância para a sociedade, empurraram essas perguntas para a casa das desimportâncias. De olhar para o céu não desisti. Vez ou outra, mesmo agora, roubo um instante das minhas ocupações, para vê-lo. Basta olhá-lo um pouco para quase sentir asas.

Quando era criança, ao me deitar naquele quintal, fazia porque gostava. Não sabia significados que só me chegaram mais tarde, pelas mãos da vida, pela fala dos adultos. Sabia era que saía daquele chão numa versão melhorada de mim: eu me sentia livre. Deve ser essa boa sensação a linha costurando esses anos todos de olhar o céu, vislumbrar o alto. Tudo isso poderia ter ficado lá na infância não fosse essa necessidade permanente minha de ser feliz, buscar estar bem em cada dia, não desistir de encontrar leveza, por maiores as atribulações.

Quando a vida aperta, preciso me refugiar em algum lugar só meu - o céu e as nuvens são ótimas opções - para me fortalecer, voltar para o embate. É um momento bonito.

Só não consegue ser tão bonito quanto ver o céu de dentro. A minha primeira vez foi em um helicóptero, voava a trabalho. Subimos, subimos e, lá de cima, a curiosidade me fez olhar para baixo. Vi um monte de manchas escuras no chão. Pensei serem a sombra das copas das árvores. Mas cadê às árvores? Elas não haviam. As sombras eram das nuvens lindas lá do céu, onde, naquele momento eu passeava. Foi momento ímpar, um daqueles que, de repente, parece estarmos vendo um filme rápido sobre a vida da gente.

Voltei a ser criança, deitei no chão, olhei para o céu azul, as nuvens brancas, meus algodões doces sempre tão distantes. E ali naquele helicóptero, ali naquela tensão própria de minha atividade profissional, quis estender a mão, tentar pegá-los. Não pude, mas ainda assim valeu: eu estava no céu. Me senti livre de novo. Esses meus pensamentos podem parecer tão infantis para uma mulher cinquentenária - nuvens parecidas com algodão doce!?! - mas aprendi céu foi criança. Não possuo ou não quero outra imagem para comparação.

Depois daquela primeira vez, subi muitas outras vezes. Incontáveis. Hoje, porém, aproveito as viagens para ler, para resolver algo, ocupo-me ainda mais dentro do avião também. Há, porém, sempre algum instante de eu me desligar. Nada de notebook, de celular, de web, letras, pensamentos. Volto os olhos para as janelas. E estão todas elas lá à minha espera, as nuvens. Liberdade. Lembro Cecília Meireles, seu poema "Destino":

"Pastora de nuvens, por muito que espere, não há quem me explique meu vário rebanho/

Perdida atrás dele na planície aérea, não sei se o conduzo, não sei se o acompanho. /

Pastores da terra, que saltais abismos, nunca entendereis a minha condição. /

Pensais que há firmezas, pensais que há limites./

Eu, não."

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