Coluna

Erilene Firmino: Incoerências

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 14.04.2017

Fortaleza, se não for tempo de chuva, sol não se apieda. Tem a cidade como sua. Meio dia, arde na pele como se com raiva. Brisa no rosto pode ser vista como milagre. E em horas assim, justamente a vejo como presente divino. Quando chega, dependendo de onde esteja, abro sorriso. Da última vez, era em uma praça próxima ao trabalho onde eu estava, intervalo de almoço. Aproveitava cada segundo de silêncio, sem obrigações a fazer, usufruía o estar em paz. Pés descalços sobre a terra, em contato com a grama, em comunhão comigo, completamente entregue ao mundo bom.

Por mundo bom leia-se o aspecto natural e quase intocado dele, onde as flores, os rios, as borboletas, o pássaros, estrelas e as pessoas bem legais moram. Entrar em contato com este aspecto da vida é minha forma de sentir Deus pertinho de mim. O último encontro fora há tempos - não é quando a gente quer, carece sempre uma conjunção de fatores, às vezes, até alheios à nossa vontade - e, por isso, me sentia feliz. Sensação gostosa de bem estar no coração. Meio dia, sol escaldante, protegida pela sombra de uma árvore, estava tão entregue ao momento que me sentia como se flutuasse. Não é exagero. Possuo capacidade de me abstrair em pouco tempo. Sair de um quadro de estresse e, momento seguinte, estar já quase em estado alfa.

Necessito dessa travessia rápida. É como dou fluidez ao compasso dos dias, não permito as energias negativas dominarem o ambiente. Pois estava assim, meio esquecida deste mundo e passeando em outro, quando uma mão tocou meu ombro. Foi suave, respeitoso o toque, seguido por voz macia me oferecendo uma palavra de conforto. Bíblia na mão, sorriso de boas intenções, mas abordagem em horário inconveniente. Seu intento era me dar suas preciosidades, mas retirou-me da minha. O toque me trouxe de volta do estado de comunhão. Atordoada pelo retorno brusco, recusei a oferta. "Obrigada, moço, não precisa. Estou bem", agradeci encabulada. Talvez por lhe parecer uma desculpa, insistiu. Novamente fui verdade. "Prefiro ficar aqui em silêncio, quietinha". Aquiesceu. "Respeito", falou.

Desculpei-me pela recusa, pus sorriso no rosto. No coração, a pergunta: será? Precisava saber se o anseio dele em me confortar era tanto que o impediu de perceber a placidez em meu rosto - precisava mesmo ser consolada por quê? - ou se sua necessidade de fazer seria sempre maior do que qualquer real pensamento sobre o outro. Às vezes, a pessoa no intuito de ajudar o outro, se atrapalha. Preferi apostar na boa intenção. Justo por isso não lhe entreguei a informação mais importante. Guardei sobre ter me roubado do meu encontro com Deus, ter me retirado de um estágio de paz interior tão difícil de atingir hoje em dia que, por um instante, puxou meu céu, tirou meu chão.

O desencontro serviu-me como lição: forçar o nosso mundo a quem julgamos estar precisando de ajuda, pode não ser a melhor opção quando se pretende ajudar. São muitas as formas de chegar a um mesmo destino. As palavras, às vezes, são tão vazias, deixam de ser pontes. Há casos de o silêncio me dizer mais. Para outros, entretanto, ele pode significar somente a ausência de som. Fiquei pensando nisso enquanto meu interlocutor se afastava, indignada pela interrupção. Queria compreender a razão de eu ter lhe despertado a necessidade de ajudar. Tanta gente naquele mesmo lugar...

Posso ter lhe parecido insana. Meio dia, mulher com roupas formais, pés descalços, sozinha em uma praça lotada. Em minha defesa, entretanto, digo: estava protegida sob a sombra de uma árvore, meu rosto estampava completude, os sapatos estavam próximos, ao alcance dos pés. E me isolara em um banco justamente para fugir do barulho, dos muitos outros mundos dos outros. Queria o meu. Por estas questões, então, considero absurdo parecer necessitar. Onde já se viu neste mundo, a pessoa não poder ficar sozinha?! E há pecado no tirar os sapatos para sentir a terra antes de voltar para o escritório? Pois se há erros nisso, mostrem-me. Aliás, provem-me. E, depois, tentem me fazer mudar de ideia.

As pessoas temem tanto o diferente, a solidão. Nem o um, nem o outro receio. O diferente aceito, aprecio, não suporto tudo igual. E o ficar sozinho preciso. É quando me reabasteço de bons fluidos para o encontro com o outro, com o mundo, com Deus. As pessoas temem tanto serem exatamente o que lhes pede o coração - tirar o sapato, pisar o chão, sentir a brisa - e eu todos os dias não quero nada além, a não ser, ser exatamente o reflexo dele.

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