Coluna

Erilene Firmino: Importantes

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 05.05.2017

A vida não é bela como disseram no filme ou querem nos fazer acreditar os espiritualizados e otimistas. Aliás, faço um adendo. Se considerarmos somente a essência do existir e das inúmeras possibilidades que isso traz, então, ela é linda mesmo. Agora, se a análise abranger toda a complexidade de viver, os problemas, os dilemas, a luta renhida por chegar são e salvo ao fim de cada dia, os tons da vida se tornam mais severos, soturnos, enigmáticos. Todos os dias são desafios. Tanto a fazer, tantas decisões a tomar, tantos aborrecimentos, tudo múltiplo, inclusive os prazeres que são muitos, incontáveis, inacreditáveis.

Talvez esteja errada. Talvez pense assim - a vida ser mais problema do que solução - por me espelhar na minha história, onde nada veio fácil. Talvez para outras pessoas, ela seja sempre boa e muito mais solução. Alheia a isso, carrego comigo a vontade de permanecer e de desbravar. É nesta multiplicidade de bons e ruins onde encontro o sentido de viver. A vontade de estar aqui, a possibilidade de a vida dar certo, é o que nos faz agarrar a última esperança. E caso ela decepcione, a gente arruma uma esperança nova para continuar o exercício de espera. É muito bom viver, realizar. Saber ser possível algo, porém, por mais distante que esteja alcançar, também faz palpitar o coração.

As possibilidades são estímulos para agir. Não é romantismo. Sou idealista, mas também muito mais determinista do que subjetiva. As ocorrências surgem, eu vejo como agir: se estão conforme o meu desejo, se preciso me adequar, se é possível ignorar. Os fatos não acontecem conforme nossas necessidades. Eles são maiores do que nós, acontecem e pronto. A forma como lidamos com isso é determinante para saber sobre nossa resolutividade. Se estamos ou não aptos a ter sucesso no caminhar em corda bamba. Antes, me assustavam tantas variáveis. Eu queria modificar as coisas, fazer de um jeito que considerava o correto, de forma bonita.

Hoje, me sustenta saber que posso viver mesmo em situações ruins. Fico com a sensação de estar pronta. Não é ter respostas para tudo, mas ter a capacidade de solucionar. Ter a ciência de que toda e qualquer adversidade não é o fim do mundo, não é o mundo contra mim, mas questões inerentes à vida, restaura. Ter resiliência me ajuda muito. Ela funciona como um dos principais suportes quando preciso aceitar, quando preciso fazer, quando preciso mudar, quando preciso partir. Não importa se essa partida fala de distância geográfica ou alteração de comportamento.

Nunca é fácil. Qualquer novidade, qualquer descoberta ou aceitação sempre dá frio na barriga. Em alguns casos, sofro como se um punhal rasgasse meu ventre. Fico assim dias seguidos até a calma retornar. Depois, a paz vai se restabelecendo. De repente, após muita reflexão, tudo volta a se encaixar. E como num passe de mágica acredito que dará certo. É como se fosse manhãzinha e eu deixando a casa pela última vez, sentisse o vento no rosto. Antes do primeiro passo, observasse a mochila para ver se estava mesmo levando só importante. Em seguida, mirasse o horizonte com olhos semifechados, incertos. Por último, hesitasse ainda, corpo curvado - um instante só isso tudo - erguesse a cabeça, seguisse.

Não sei de onde tirei essa imagem. Se do final de filme de cowboy, se é projeção minha para o futuro ou se já vivi em dias bons. Pode ter sido algum tempo de infância ou quando me percebi estar dentro de um sonho, eu gosto muito dela. Tanto me acalma, quanto me faz agir. Temos por hábito deixar para o dia seguinte, esperar milagres sem rezar. Atitude ou de quem acredita demais ou de quem busca o caminho mais fácil. Ele não existe. Aliás, pode até vir a existir, caso nos foquemos em sua construção. É preciso, porém, deixarmos de esperar que ele se erga em nosso entorno, semelhante à vegetação dos filmes logo após uma gota de água cair no solo. Se a nossa estrada é vermelha ou amarela, como no Mágico de Oz, não importa. Uma ou outra terá de ser construída por nós.

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