Coluna

Erilene Firmino: Edição da vida

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 08.09.2017

Adoro fotos, vídeos com imagens de pessoas queridas, locais ou paisagens por onde eu já tenha andado ou ainda pretenda conhecer. Além de arquivos no computador e celular, guardo também alguns daqueles antigos álbuns de fotografias. Vez ou outra, passeio por todos eles. Quando a saudade de quem amo aperta, busco suas imagens, tentando senti-los perto, tê-los de volta, o instantinho mínimo possível. Com as fotos nas mãos, fecho os olhos, retorno para o momento do click, relembro como aconteceu, revivo o como estávamos, o jeito de ser da pessoa. É a forma mais fácil, das muitas encontradas por mim, para me reabastecer de seus traços, lembrar suas almas.

Saber os pormenores de cada um, sei. Conforme o tempo passa, entretanto, se não reavivados na memória, esses saberes vão se dissipando. Ter as imagens dos meus queridos à mão, poder ouvir-lhes nos vídeos, fortalece as lembranças, aproxima um pouco mais. As imagens me reabastecem das pessoas fisicamente distantes, daquelas que ainda posso encontrar, das outras cuja viagem derradeira já se realizou, dos meus lugares preferidos e até mesmo de mim, como eu era quando estava na companhia delas, como sou quando estamos pertinho ou posso usufruir dos meus lugares preferidos. Preciso ficar brincando desse ir e vir de lembranças para me sentir bem. Nesses encontros sou exatamente eu, por isso a necessidade de tê-los.

Ao me transportar para um outro tempo da minha história, tenho momentos fortes: o outrora é peça importante na construção do agora. Todo esse meu apreço por imagens, entretanto, desaparece rápido quando sou eu o foco da lente. Detesto ser fotografada. Se o registro for feito sem eu me dar conta, não há imbróglio. O problema é o aviso: vamos tirar fotos. Isso sempre me incomodou, mas o desconforto foi potencializado recente. Tenho sofrido horrores nesses tempos em que cada pessoa tem um celular e, cada aparelho, uma câmera. E cada ação nossa, cada instante de nossa vida - se nos encontramos, se o sorvete é gostoso, se entrei no mar, se saí do mar, se vou para o trabalho, escola, bar, enfim, a lista é grande -, aparentemente, precisa ser registrado.

Cada ação do proprietário da câmera e de quem está perto eternizado como algo de relevada importância. E eu - coitadinha de mim - além de nunca ter aprendido a sincronizar sorriso espontâneo com o "olha o passarinho", ter pouca paciência para tolices, ainda gosto de me sentir fielmente retratada em cada imagem. Nem sempre é possível. Primeiro de tudo: não sei ser fotografada. Horrível ficar parada frente à câmera, forçando naturalidade, enquanto se espera o registro do instante. Depois, não consegui ainda arrumar um sorriso pronto - muita gente sabe qual seu melhor ângulo, como deve sorrir, posicionar o rosto, fazer isso ou aquilo com os olhos -, eu não. Desconheço os truques para sair melhor na foto. E enquanto espero o click, desespero-me ao ver os defeitos todos sendo transferidos para a imagem. A preocupação não é com estética.

O incômodo é saber estar prestes a ter a imagem aprisionada num retrato. Foto vejo para além da imagem. Ela retrata o tempo, guarda-nos para a eternidade. Se é feita aos montes, com um sorriso editado, guarda o quê de mim? Se arrumo um sorriso novo somente para estas ocasiões, não adianta me olhar no futuro. Não sou eu na foto. Se bem que, se a partir de agora, passo a repeti-lo, de tanto fazer, de alguma maneira, ele acabará se tornando meu, eu. Ainda assim, prefiro não. Gosto é de alma. E as câmeras usadas por fotógrafos amadores ainda não conseguem flagrá-las. No entanto, estão justamente nelas o como ser de cada um, belezas e feiúras, a essência. E era por esses detalhes que gostaria de ser lembrada no futuro, quando alguém se debruçasse sobre minhas antigas imagens.

Mora nisso meu desespero. Se coloco sorriso pronto no rosto, pareço estar editando a mim mesmo. É como se parasse, para dar uma maquiada na situação, disfarçar imperfeições. Me sinto desonesta se forço um sorriso que normalmente não estaria ali. É como se tocasse em algo sagrado, mudasse a história. Não consigo congelar imagem em mim. Sou inquieta por natureza. Ao mesmo tempo, quero me mostrar como sou, para ser aceita com minhas imperfeições. Quem não gostar do que vê, segue, me esquece, não me permite em sua vida. Eu prometo fazer o mesmo.

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