Coluna

Erilene Firmino: Certezas absolutas

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 16.06.2017

Não tem hora ou situação certas para acontecer. De repente, pode-se estar conversando ou observando a movimentação da rua, do escritório, da casa e, num súbito, vem a certeza: estamos exatamente onde desejamos a vida inteira.

Um rebuliço se inicia em todo o corpo, as veias latejam, olhos brilham, alma e coração festejam. Em seguida, paz. A quietude vai se estabelecendo em cada parte desse mesmo corpo. Vamos sendo tomados pela boa sensação que só a plenitude é capaz de dar. É mágico.

Tudo muda. Pretende-se congelar o tempo para usufruir bem devagarzinho a ímpar sensação de estar vivendo o momento pelo qual se lutou sempre. O insight não dura um segundo, mas a boa sensação de ter conseguido, de sentir-se pleno, é inesquecível. Passamos a querer tê-la sempre e mais.

Sobre o assunto tenho uma boa notícia. Essa tal boa sensação da qual falo pode acontecer várias vezes em uma mesma vida. Eu já tive algumas, por razões bem diversas. Em todas, a sensação de plenitude foi absoluta. Tentei prolongá-la ao máximo, ir absorvendo minuto a minuto a felicidade.

É isso. Após termos percebido estarmos dentro de um sonho, vamos nos alimentando dele, lutando para permanecermos nas mesmas condições todos os dias. Se temos o que pretendemos, a tendência é criar condições para nunca mais acabar. A vida, porém, não funciona assim. Um sonho acontece mais para mostrar ser possível vida boa, não vem com garantia de eternidade.

Depois, não se consegue plenitude o tempo inteiro com o mesmo. Se o sonho realizado não mudar, nós mesmos vamos nos modificando a cada dia e, também de repente, percebemos não nos bastarmos mais.

Difícil estar diante de uma certeza como essa, abrir mão. É complicado ver o paraíso se transformar em floresta temerosa. Persistentes, insistimos em nos manter no antes. Ora, quando se luta muito para atingir um objetivo, não se larga mão dele diante das primeiras, segundas ou terceiras dificuldades.

Embrenhamos-nos em inúmeras batalhas até nos convencermos de ter chegado ao fim, ser hora de ir buscar plenitude outra vez. Somos muito tolos! Mudar acontece independente de ser esse o nosso intento. Paulatinamente vamos aceitando novidades, abrindo mão do que antes eram certezas.

Nossos princípios norteadores permanecem como raiz, mas vamos nos colocando anexos, necessidades diferentes, deixando de carecer do que antes era essencial. A vida é grande demais para ficarmos amarrados a apenas um sonho quando podemos sonhar tantos.

O que antes era felicidade, hoje, pode ser asfixia. Sairmos de um para o outro não é errado. Deixar de nos esconder atrás da segurança e assumirmos novas escolhas é libertador. Errado será se negarmos a beleza do que nos abrigou, querer passar a borracha, esquecer. Tudo é importante, do tamanho exato do que precisamos quando o estamos vivendo. Se ficou pequeno e asfixiante é por termos crescido.

Já tive muitos momentos de plenitude. Em alguns pretendi ficar infinito, em outros, precisei partir em busca de me sentir plena outra vez. Não apenas pretendi, eu fui embora já algumas vezes. Sai chorando, claro. Meio desesperada seguia. Rosto inchado, uma tristeza tão imensa que contrastava com a felicidade de me sentir forte para ir novamente em busca de ser feliz. As pessoas questionavam minhas lágrimas: mas se vai triste, não devia ficar? Não. É muito difícil decidir, mas após tê-lo feito, é assumir.

Até hoje, nas decisões mais importantes da minha vida - quando precisei deixar a sala de aula para assumir carga horária maior como jornalista, quando sai da casa dos pais para morar sozinha, quando rompi relações amorosas por serem mais danosas do que prazerosas, quando abri mão de sonhos antigos por outros novos -, eu saí chorando. Fui resoluta, sem olhar para trás, mas fui. Receava desistir de partir, voltar, porque doía demais deixar, seguir. Meu coração, entretanto, dizia: vai, vai..

Sempre parti por instinto de sobrevivência. Eu fui sofrendo. Nada de sorriso no rosto por saber ter feito a melhor escolha. Sempre havia era angustia espelhada na cara. Ia com medo mesmo, porque, na verdade, quando a gente põe o pé em uma estrada nova, dentro da gente, a outra já terminou. Não se tem para onde voltar.

O anterior deixa de existir quando rompe com nosso coração. Lá atrás, ele pode estar de pé, mas não nos cabe mais. Não é fácil. Nada é fácil, na verdade. Porém, se é doloroso rasgar ou apagar fotografias, quanto mais romper relações, mudar caminhos, travar novos embates. Sempre lembro Clarice, ela disse, viver requer coragem.

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