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Erilene Firmino: Caminhos de perdição

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 14.07.2017

Tenho problemas com identidade. Carrego a necessidade desesperada de saber quem sou, para onde vou, se o caminho percorrido por mim está em conformidade com meus princípios. Todos os dias atento, todos os dias. E por mais exaustiva essa vigilância, não pretendo diferente. Gosto de ter ciência do que está acontecendo, as consequências lá adiante do fazer de agora.

Não policio os outros, entretanto. Não lhes julgo ou cobro comportamento A ou B. E a eles só dou qualquer parecer se me for solicitado. Já me dá muito trabalho focar em mim: sou eu minha principal vítima. Mantenho-me vigilante com os meus "posso não posso". Talvez até por isso - já vão mais de cinco décadas essa minha caminhada - que eu mantenha ainda pulsando no coração a razão do primeiro passo, lá no comecinho.

Não tenho garantias. Há vezes de me perceber em caminho completamente diferente do originalmente pensado, mas não me encabula voltar. Não é o melhor momento da vida quando percebemos ter errado, mas, devagarzinho, acabo aceitando minha fragilidade. Não tenho poderes mágicos, não sou Deus. Erro, percebo, tento refazer, recomeço. Se me permitir paralisar por quaisquer questões, não vou conseguir chegar aos destinos nunca. Ora, quantos de nós perde o caminho e quantas vezes numa vida só?! Inúmeros. Tento logo reequilibrar porque todos os dias luto para me manter sã, firme, coerente com minhas origens onde estão os princípios norteadores de minha identidade.

Sei quem sou, onde nascem minhas raízes, mas preciso travar batalha permanente para não esquecê-las misturadas ao modo de viver de quem vive próximo a mim, dos lugares alheios a minha história pelos quais sou forçada a passar. Luto também para não permitir essa perdição às pessoas ao meu redor. Não sossego quando percebo alguém indo em direção contrária ao seu pensamento, sem se dar conta. Alerto: esse caminho pode não ser o seu, reveja. Da gente quase sempre sabemos, mas a vida, vez ou outra, embaralha tudo. Mora nisso meu cuidado. Perdição não avisa quando vem. É fácil confundir veredas, não conseguir achar a ponta do fio de um novelo formador de nós.

A vida possui muitas situações adversas. E se ficarmos longo tempo submetidas a elas, vamos desacreditando de outras serem possíveis. Resistimos primeiro. Depois, vamos amolecendo, acostumando, adaptando. Nos casos da adequação não doer - afinal, mudar faz parte do viver -, não há problemas. Entretanto, se fere minuto a minuto, pode-se cansar de lutar, ficarmos por ali esquecidos de nosso valor: perde-se a estima, deixa-se de acreditar em nossas potencialidades, transformamo-nos em qualquer outro, tão perdidos de nós mesmos ficamos. E esse esquecer de si para se transformar no que não somos, assumirmos outra identidade, não acontece somente quando vivemos ruim.

Em felicidade também podemos deixar de sermos nós. A gente vai se tornando o outro aos poucos - sem querer - porque é bom, porque é gostoso, por causa do aconchego. Sejam os motivos bons ou ruins, entretanto, perdição é perdição. Carecemos sempre retornar a nós, reconhecermo-nos.

Quem não sabe de si, não tem ideia real de onde está, como deve ser o próximo passo, vive angustia. Não sabe ser feliz sozinho, nem acompanhado. Semelhante ao cão que, às vezes, gira em torno do corpo brincando com o próprio rabo, o indivíduo se põe a dar voltas ao redor de si, certo de estar em movimento, sem, contudo, sair do lugar.

Muito triste isso! Para além da tontura após tantas rodadas, a pessoa pode se confundir. Ora anda reto, ora cambaleia, caminha em zig zag, sem terem ela ou quem a vê, certeza se chega a qualquer lugar ou se cai antes. Bom manter o prumo, deixar o estado pião de lado, conseguir linha reta. O deslocamento pode até ser feito com andar estranho, a pessoa caminhar meio tortinha para um lado como se a vida a dobrasse, mas se esquece o círculo, pode dar certo. Na vida, a precisão é avançar sempre. E se sabemos de nós, temos certeza de onde pretendemos ir, cambalear será sempre o mal menor.

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