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Erilene Firmino: azul de bolinhas brancas

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 11.08.2017

Adoro bolinhas brancas nos tecidos, nos papéis, nos móveis da casa, onde possam estar, gosto. As bolinhas me fascinam independente de serem destaque da estação. Até recente, pensava ser a razão de meu amor um amontoado de porquês: a moda, o contraste bonito entre as cores, porque era a estampa de um dos vestidos da Júlia Roberts no filme "Uma linda mulher", a lista de razões era grande. Outro dia, entretanto, me deparei com a verdade verdadeira dessa história toda: uma foto de mim criança.

Eu era uma princesa. Estava toda linda com um vestido de listrinhas branca e rosa, saia com pregas e, como destaque na cintura e mangas, uma fita azul com bolinhas brancas bem pequenininhas. Era o céu no meu vestido. Um ceuzinho só para mim, pregado ali pelos dedos de minha mãe autora da roupa. Nunca fui tão feliz quanto os dias em que podia ter sobre meu corpo meu vestido com detalhes da cor do céu. As minhas tias contadoras de histórias haviam me garantido serem assim as vestes das princesas com finais felizes, aquelas residentes nos contos de fadas. Eu com ele, era feliz igual.

Até hoje, não conheço roupa mais perfeita do que aquela. Neste agora, possuo muitas peças com bolinhas brancas, mas nunca mais vesti qualquer outra capaz de me fazer sentir tão importante. A questão, percebi ao me olhar na foto desbotada, é que, daquele vestido, somente a boa sensação ficou. O prazer de me sentir plena ao vesti-lo transferi para as bolinhas brancas. E se conto aqui essa história, aparentemente tola, mais é para dizer sobre como consigo me reencontrar, vez ou outra, nas pistas que, sem querer, fui deixando pelo caminho até aqui. Ele não é minha única pista.

Meu vestido foi onde nasceu o amor pelas bolinhas; o sapato vermelho foi de um seriado na televisão, o jeito torto de sorrir, a manutenção de cachos nos cabelos, tanto detalhes capazes de explicar a razão de eu gargalhar, chorar, lutar, de eu ir, de eu ficar, as razões de meus afetos, fracassos e sucessos. O que me construiu, o que me moldou, quem me pôs este sorriso no rosto, essa desimpaciência para questiúnculas, essa pressa mental, esse corpo preguiçoso, todo o jeito como sou gosto de saber os porquês, fico feliz quando descubro mais uma peça para facilitar a leitura desse labirinto. Tenho uma necessidade absurda da posse de cada parte minha porque gosto de compreender onde estão os cordões capazes de me levar aos sentimentos mais profundos. Meu viver não acontece de outra forma a não ser com intensa emoção.

Cada dia cresço nessa necessidade de refazer as estradas. Esse mundo que está aí não é o meu. Não sei se existe importância para bolinhas, vestidos feitos pela mãe, necessidade de autoconhecimento, viajar pelas músicas ou literatura, pegar na mão de quem está tão longe mais ainda assim me serve de ajuda, andar por caminhos tortos, não possuir nenhuma regra imutável, ter a mente aberta para muito, sentir necessidade de sangue pulsando na veia. Fico oscilando entre me encaixar ou criar um outro mais parecido comigo. Avanço oscilando mesmo.

Então, se até agora, usava bolinha por múltiplas razões, hoje, possuo uma revolucionária. A próxima vez que as vestir, o coração será outro. Minhas bolinhas futuras terão a força do primeiro sentimento. Todas as vezes que me percebo mais ciente de mim, ganho uma estrelinha como presente. Eu mesma me condecoro pelos bons serviços prestados à minha pessoa e àqueles que vivem perto de mim, pois saber-me interfere positivamente na minha relação com o outro. É assim, vivo desse jeito. E cada descoberta como essa do meu vestido, das minhas estrelas, me traz uma felicidade imensa. Ela sempre vem misturada a um pouco de saudade, admito, mas ainda assim vale. Sempre me anima saber estar um pouquinho mais perto.

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