Coluna

Erilene Firmino: Amor na pele

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 06.10.2017
Aprendo fácil. Sempre foi assim. Na escola, ótima aluna; na vida, meio enviesada. Meu processo de aprender nunca respeitou norma ou medida. Fiz cursos, tive amores, amigos, rupturas, empregos, aventuras, loucuras, ora ganhei, ora perdi: vida. Muito ficou pelo caminho – gente, sonhos, ingenuidade, fé cega – mas fui aprendendo com cada um desses movimentos, sem doer infinito. Sofria – todas fissuras ou perdas ou quedas doem –, entretanto, seguia sem grandes alterações no meu jeito de ser. Resiliente de carteirinha, enxergava tudo como processo, os ciclos. De tanto subir e descer, imaginava que sabia perder. Julgava errado.

A perder só aprendi com a morte da Lia, minha irmã. Ela morreu há quatro anos, algumas horas, muitos meses. Eu a amava tanto que, tola, a julgava imortal. De a gente nascer e morrer, sempre soube, mas da Lia não. Como a via muito grande, esqueci ser humana como eu, portanto, frágil. Fui surpreendida com tão definitiva partida. As minhas mãos paralisadas ao longo do corpo, sem poder fazer qualquer algo para impedir, foi dor absoluta. Precisei ir atrás de forma nova para continuar sorrindo. Careci me reinventar. Prossigo até agora no intento. Desculpem a demora em verbalizar tão importante. Contar apenas agora dessa perda tão definitiva foge ao descuido: eu não conseguia verbalizar dor tamanha. Palavra cria mundos, fortalece realidades. Dizer era perder ainda mais.

Minha irmã, ao viajar para sempre, deixou herança valiosa comigo: as filhas. E, por mais contraditório, uma vontade desesperada por viver. Antes, não me preocupava muito com tempo. Eu, inclusive, possuía um próprio. E venho abrindo mão dele, aprendendo o do mundo. Destrambelhada de nascença, sempre aprendi foi por linhas tortas. Não seria diferente com a Lia. A morte de minha irmã me ensinou vida. Decidi adotar a sede dela de viver. Agora tudo em mim arde, tudo em mim, urge. Vivo com sofreguidão, como se fosse hoje o último dia, não me fosse garantido o amanhã, eu tivesse consciência disso. Deixei de empurrar os importantes com a barriga, digo “te amo” todas as vezes, faço.

Não cedo mais tempo para aprisionamentos, sofrimentos desnecessários. Pretendo liberdade, ser feliz. E vou e brigo e luto. Não é fácil. Para cada passo à frente, deixo algo. Às vezes, o que fica é tão importante quanto o que vai, mas já não casa mais com esta mulher de agora. Abro mão. Vou chorando, muitas vezes, olhando para trás. Quem aposta na emoção sabe, cotidianamente, coração é assim mesmo, choroso. E a ele devemos tratar como menino. Adultos, sabemos o que é melhor para a criança. Quando doentinha, convencemos-lhe a tomar remédio amargo. “Beba, meu amorzinho, vai lhe fazer bem”. O menino não suporta o amargo, o adulto sabe do poder curativo dos remédios ruins. Impomos. Coração é frágil, é vida, mas é forte também. Pulsa em lugares inesperados.

Tenho vários, por exemplo, na tatuagem onde moro, feita na perna de minha sobrinha. Estamos lá eu e a mãe dela. A tatuagem mais linda do mundo, porque poesia. Antes de ser tatuagem, foi foto. A imagem resgata um dia feliz. Manhãzinha, conversando como costumávamos fazer, em casa. A diferença era estar de frente para o mar. Naquele dia tão longe, a sobrinha fez a foto. Ficou bonita. Virou quadro nas paredes das duas casas. Só depois, tatuagem. Essa imagem, essas lembranças, sempre me emocionam. Volto para aquele momento onde os perigos apenas se pronunciavam. Indiferentes, cumpríamos nossos rituais: praia era o programa favorito.

Eu, em meu corpo, não possuo uma tatuagem só – não me apraz sair por aí com um princípio marcado na pele – mas sou uma. Amo saber estar com minha irmã na perna da filha dela: todas unidas em um lugar só. Presas, mas livres, pela capacidade de locomoção. Há algo mais simbólico para avanço do que perna? Tatuagem, aliás, foi outro aprendizado meu depois de a Lia partir. Essa onde moro conta nossa família. Apenas duas pessoas visíveis, mas muitas outras envolvidas pelo contexto, pelas presenças, pelas ausências, pela saudade. 

Pois amar é assim, termina sem terminar. Uma pessoa vai, outra aparece; fecha-se um ciclo, começa outro. Os amores da vida inteira prosseguem no coração. E é justo nele onde guardo os amores, as certezas. Tenho duas importantes. Uma: se um dia, decidir colocar qualquer imagem em meu corpo será essa da poesia ou as duas meninas ou flores ou passarinho ou estrelas ou a palavra verbo indicando ação ou uma máquina de escrever – sou analógica - gritando jornalismo. Certeza dois: são esses os meus para sempre. Eu posso mudar de pele, eu posso mudar de estado ou país, eu posso mudar de tudo, mas dessas certezas não.

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