Coluna

Erilene Firmino: Amor de passarinho

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 21.04.2017

Deixar o outro livre quando a intenção é tê-lo por perto é estratégia de passarinheiro. Expõe em sua casa todo o necessário para o bem estar da ave - jardim mínimo, vasilha com água e comida, silêncio -, ao mesmo tempo cria um local onde ele mesmo possa ficar sem chamar atenção, para poder ver o passarinho, acompanhar seu movimento, ouvi-lo cantar. Respeitados os espaços e o modo de ser do pássaro e do homem - passarinho é arisco, homem gosta de ter quem e o quê precisa sempre à mão -, em cada encontro, os dois se abastecem. Não há muitas garantias nessa relação. Pode-se ir e vir quando se pretender. E por mais desejo e por mais saudade que por ventura exista da parte de um, ele sempre terá de esperar a intenção do outro, para o encontro se dar com constância.

O passarinheiro experiente, entretanto, amanhece sempre com uma certeza. Não precisa de gaiola para aprisionar. A visita não se dá exatamente na hora que pretende, pelo tempo desejado - quando a confiança se estabelece, é até capaz de isso ocorrer -, mas o principal acontece: todo dia tem passarinho. Sei que a uma primeira impressão pode parecer tolice não se ter controle do que se gosta tanto. Se a intenção, porém, é viver com respeito a si e ao outro, qual seria a razão de precisar controlar? Não sou heroína. Não possuo nada muito diferente de todos os humanos: penso primeiro em mim, sou frágil, tenho medo de perdas, receio de as pessoas irem embora, das belezas do mundo se acabarem, do que dá sentido à minha vida esvair-se. Todos os dias, contudo, esforço-me para ser uma pessoa melhor.

Aposto no que acredito, mas respeito o outro. Não quero clones de mim ao lado meu. Não quero prisioneiros, descaracterizados de si mesmo. Se o desejo for transformar o outro em mim, por qual razão ira querê-lo, se já me tenho? Espelhos na minha vida hão de ser sempre para uma olhada rápida, ver se a roupa ficou legal, o cabelo está ajudando, se o batom é mesmo da cor pretendida. Se nos apegarmos somente ao reflexo, a tendência é acreditarmos não existir qualquer aspecto interessante fora de nosso mundinho. Olhar para além dele é exercício diário, aparentemente fácil, mas bastante complicado. Piora ainda mais, quando o outro ao lado é objeto do nosso amor. Deixá-lo livre para escolher não é tarefa simples, embora seja o básico de uma relação sadia.

Nada mais difícil do que permitir liberdade a quem se ama. Soltar a mão da pessoa para ela caminhar sozinha. Não é ruindade. Ser livre é perigoso: são tantas as curvas sinuosas, surpresas em cada esquina, sofrimentos. E quando a gente ama quer cuidar, evitar o mal acontecer. Necessário ser forte. Domar o coração, deixar a pessoa seguir, construir seu próprio caminho. Ou abrimos mão - mesmo permanecendo um pouquinho só atentos - ou criamos pessoas dependentes de nós, de outros, de qualquer um que passe na rua. O dever de um ser livre é ajudar a formar um outro ser livre também, capaz de ter suas próprias opiniões, lutar por elas. Não se sentir maior ou menor, mas inteiro, importante, único, ímpar, amado.

Tenho dificuldades neste exercício de permitir meus amores serem livres. Amor é também uma forma de aprisionamento. E esse meu coração só sabe amar demasiado e se derramando. Então, eu se pudesse mesmo e se fosse mais egoísta, esquecia o que era melhor para meus amados. Cortava as asas de cada um, dizia fica, não precisa se preocupar com nada, eu ajeito tudo. Construía redoma para minhas flores, transformava-as em passarinhos presos em gaiolas, prendia os próprios passarinhos: dava comida, água e ele sempre podia cantar. Não seria a canção mais bonita, contudo, estaríamos perto. E isso me alimentaria. Aprendi, porém, que amor há sempre de ser o mais incondicional possível ou não tem sentido. E, por isso, tento. Lembro o passarinheiro, tento. Eu tento todos os dias.

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