Coluna

Erilene Firmino: A vida em cena

erilene-firmino

Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 29.09.2017

O calor me faz querer chuva. Às vezes, ela realmente vem. Às vezes, passo dias, meses à espera, querendo qualquer alívio do sol, sem, entretanto, conseguir. Sempre é assim por aqui. Se a noite vai ser boa em precipitações, antes o calor as anuncia. E eu que, por muito pouco, crio histórias de mil capítulos, vejo isso como inúmeras possibilidades para ser feliz. Saber o quanto pode ser ruim antes da primeira gota cair, possibilita o regozijo ser maior. Contudo, não careço de incentivos. A chuva sempre me chega como divina, pode vir quando bem entender, farei-lhe festa.

A seca mora dentro de mim desde o primeiro dia. Ter água me alegra. Nasci com esta sina: viver na aridez do semiárido, doer migração, precisar chuva todo dia. Essa tríade, se por um lado me condena, por outro, me dá suporte. Sempre recorro a ela quando preciso permanecer na adversidade ou romper ou partir. Seja de um lugar para o outro, seja quando abro mão da peça que já não me cabe mais ou quando me sinto impotente. Nas primeiras horas após a descoberta, sofro como se um punhal rasgasse o ventre. Fico assim dias seguidos até a calma voltar. A gente se acostuma com tudo, ensinava minha mãe.

Pois tenho visto serem verdade suas frases profecias. Cedo ou tarde, a gente entende, aceita, a calma sempre vem. E eu sou fácil. Percebo-a ir se estabelecendo devagarzinho e, de repente, como num passe de mágica, tomar posse de mim: passo a acreditar firmemente que tudo dará certo. É como se fosse manhãzinha, a pessoa deixando a casa pela última vez, sentisse a lufada de vento no rosto, observasse se estava tudo mesmo dentro da mochila, se certificasse não ter esquecido nada, embora lhe dissesse o contrário o coração. Em seguida, erguesse a cabeça, olhasse o horizonte com olhos semifechados, incertos. Parada na porta, hesitasse um pouco, corpo dobrado, vista no chão - um instante só isso tudo - e, depois, erguesse a cabeça, seguisse, mas ziguezagueando.

A cena, de fato, roubei dos filmes americanos, mas não encontro melhor forma para dizer sobre as angustias de decidir. A vida não é uma reta só, pede muito de nós. Há tantas curvas, tantos descaminhos. E temos por habito hesitar. O comum é deixar para o dia seguinte, aguardar os fatos acontecerem sem precisar qualquer ação nossa. Insistimos em esperar por milagres sem rezar. Postura ou de quem acredita fielmente ou de quem busca o caminho mais fácil. Ele não existe. Aliás, o melhor caminho para nós, seja fácil ou difícil tê-lo, está ao alcance dos dedos, bastando, para isso, nos decidirmos por sua construção. Ficar tentando concretizá-lo como desejamos, sem esperar que ele se construa ao nosso redor.

Não é tarefa simples, requer disciplina, persistência. Tanto por fazer sempre, tantas decisões a tomar, tantos aborrecimentos e outros muitos prazeres mais, exigindo de nós, cotidianamente, vez ou outra podem nos fazer cansar, mas.... Até peço desculpas por essa descrição enfadonha da vida. Admito que ela poderia ser mais bonita, porém, não pretendo falsear. Talvez minha vida não tenha sido de princesa e, por isso, minha impressão seja a de ela vir com mais problemas do que soluções. Talvez para outras pessoas, além de crianças sãs, ela, a vida, possa ser mais solução. A mim já nem importa, caminho. Carrego comigo essa vontade de permanecer, de desbravar, espero chuva fazendo ou não calor. É uma espera tímida, quase nunca a verbalizo, quase a escondo, mas sinto. Ela me alimenta, me serve de alavanca.

A vida é justamente este amontoado de problemas, de sonhos, de felicidades e tristezas, aborrecimentos, fracassos, esperança, luta renhida para tentar fazer no fim dar certo. E o fim nosso não é só o final, quando a morte é a protagonista. É esse de todo dia, quando deitamos e dormimos, porque como fala o poeta, Rubem Alves, dormir é morrer com reversão. E como eu acredito em poetas, todas as noites morro, todos os dias, ressuscito. Levanto, vou para a porta novamente, mochila nas costas, olhar incerto, até sair oscilando os passos. Porém, se você prestar atenção ou qualquer câmera conseguir focar meu rosto, nele, levo um sorriso.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.