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Erilene Firmino: a resistência brota no asfalto

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 22.09.2017

A pressa comum ao hoje - uma velocidade muito mais construída pela sociedade e imposta ao indivíduo nesses tempos de pós modernidade - foi internalizada. Já não há mais necessidade de chamar atenção para acelerar o passo. As pessoas acordam correndo para tentar cumprir as mil e umas tarefas a si mesmas delegadas. Quem não apressa, destoa, fica à margem. Os dias parecem reality show: passamos por um espaço e outro, por uma pessoa e outra, por um desejo e outro, sem nos aprofundarmos. Apenas estamos, apenas passamos. Aperreados, não há como ver além do óbvio. Ficamos sem olhos para enxergar brechas, sutilezas, desvios, flores, a Primavera.

A estação mais bonita de todas é quase imperceptível no Ceará e, por não ser óbvia, todos os anos pode passar despercebida por nós, tão acostumados estamos somente com sol e chuva, tão apressados estamos com o correr da vida. Fortaleza é semiarido. A nós é permitido um fiapinho apenas de Primavera. Muito mais, creio eu, para sabermos como é, ter ainda mais vontade dela, querê-la em abundância. Trago, entretanto, uma boa notícia: se você, neste instante, estiver nas ruas da cidade ou em qualquer jardim, parar um átimo de segundo, olhar em volta, vai se deparar com muito mais flores do que nos meses anteriores, rosas lindas, folhagem vibrante, a mesma paisagem de antes, entretanto, bem mais bonita. É Primavera. Abra os olhos, então, para os ipês floridos e os flamboyants.

A Estação das Flores começa dia 22 de setembro e vai até 21 de dezembro, mas para começar tem pressa. Antes mesmo da data marcada, começa a dar pistas sobre si. Devagarzinho vai se estendendo pela cidade. É bonito ver tanta cor, sentir a brisa da nova estação. Nós precisamos dela. O mundo está seco. Não só de água carece, mas de gestos mais humanizados para ajudar a lembrar o bom. Tanta coisa ruim, tanta secura, tanto asfalto quente e pessoas frias que, vez ou outra, a natureza precisa emitir sinais para nos fazer acordar. Flores brotando em canteiros ladeados de asfalto - os vestígios de Primavera em Fortaleza - é um dos sinais mais belos do mundo. A intenção não é ser alegrinha, passar o tempo inteiro querendo somente ver o aspecto positivo de tudo. Na verdade, carecemos alguma leveza para refrescar a mente, o coração, nos reabastecer para poder seguir.

Refrigerar a alma nos fortalece. Possibilita acordar todo dia, enfrentar a rudeza do mundo. É essa minha forma de resistir, continuar, permanecer. Apesar da beleza e da relevância, não é coisa de adulto o esperar por Primavera. Não nos levam a sério se dizemos fazê-lo. Então, todos os anos, fico na luta entre o ser ou não ser. Como sou adulta há muito tempo, brigo comigo sempre, na intenção de me fazer esquecer essa história de levezas, de buscar nas singelezas qualquer força para continuar. Todos os anos, intento adultecer mais um pouco, agir mais em conformidade com a minha idade. Tento não me importar com questiúnculas, não me preocupar com subjetividades, focar na lida diária para o sustento da família, conseguir o dinheiro para a prestação, enfim, apostar nas obrigações relevantes. Todos os anos, falho. Um descuidinho meu das importâncias, as vejo. Basta isso, a criança reaviva em mim.

Não estranho. Flores me foram ensinadas de criança e, por isso, ano a ano, pretendo vê-las com maior abundância, insisto em Primavera. Tenho necessidade de ver flores, sorrir pela surpresa quando as encontro, procurar nos antigos pontos onde sei haver ipês - os mapeei com o olhar no meu trajeto casa trabalho casa - para ver como estão. Quando passo por cada um, estendo o pensamento para além do carro. Encaro-os sorrindo, como se tivéssemos nos encontrando naquele momento, mas de antemão soubéssemos ser um encontro marcado. A felicidade clandestina da qual falou Clarice.

Eu até queria não encontrar simbologia nas flores nascendo entre asfaltos. Entretanto, vê-las brotar em meio a crueza, indiferentes ao barulho dos carros, ao lixo, aos passos muitos e apressados das pessoas, me dá a sensação de possibilidades. Não se engane em romantismos: eu sou guerreira, eu sou forte, eu sou brava. Para quem mora no semiarido, Primavera é resistência. É um bocadinho dela só que se espalha na cidade, mas quero. Vê-la é resistir.

Não são flores somente, as minhas queridas, tão bonitinhas no caminho: são milagrinhos. Falam de esperança, da quebra de paradigma, de vencer barreiras, realizar inesperados. O sim dito firmemente quando se espera o não, me emociona sempre. E por isso, todos os anos, é janeiro ainda quando me lembro que haverá setembro. E espero pelo nono mês do ano como quem sonha. E todos os anos, ele acontece.

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