Coluna

Erilene Firmino: A fortaleza das palavras

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

00:00 · 28.04.2017

Vez ou outra, quando me ponho a dizer impropérios - brava, falo muitas insanidades - uma amiga gosta de me lembrar sobre a necessidade de ter cuidado com o que dizemos. A palavra tem poder, repete todas às vezes. Todas às vezes repete. Finjo não ser comigo para manter a brincadeira de metralhadora verbal. Meu apego ao desafio sempre me empurra para ficar tentando macular o normalmente intocável. A brincadeira, entretanto, fica nisso. Nós duas temos a mesma opinião. Cedo aprendi sobre a capacidade de agredir com palavras e o perigo disso.

Lá em casa, as falas sobre o assunto pareciam um mantra: atenção com o que vai dizer e como dirá para não ferir seu irmão. Saber dizer, como e quando pareciam ser a chave para a boa convivência. Por isso, o alerta era mais um cuidado: família grande, qualquer discussão poderia virar briga. O tempo inteiro era evitar faísca se transformar em incêndio de grandes proporções. Nosso aprendizado se dava com expressões menos poéticas do que as usadas por Horácio - "a palavra uma vez lançada, voa irrevogável" - mas o sentido era igual. Não há como voltar atrás após termos dito. Existem paliativos. Se tivermos ofendido a pessoa, sem ter sido essa a intenção, podemos pedir desculpas, esclarecer nossas razões, tentarmos reconciliação.

Devemos, entretanto, fazer isso tudo, estando cientes de não haver borracha no mundo capaz de apagar da memória de quem ouviu, algo que lhe machucou. Para isso, seria necessário um passe de mágica capaz de voltar o tempo, impedir o dizer. É esse irreversível a razão de meu cuidado permanente com a forma de falar. Cada palavra possui lugar específico dentro de uma frase, significação própria. Por mais sinônimas, ainda assim, diferem em sua essência. O dicionário é a prova. Bonito, por exemplo, não quer dizer lindo. Bonito é tudo aquilo agradável à vista; lindo, é o mais que bonito, o excessivamente agradável a essa mesma vista. Uma diferença sutil, mas importante que não pode ser deixada de lado sob o risco da imprecisão.

É por sutilezas como essas que não baixo a guarda quando o assunto é dizer e assumir as consequências desse ato. Assim, eu, normalmente falastrona, faço silêncio ao me perceber sem a posse de minhas emoções. Quando os sentimentos são de amor não há refreio. Jogo tudo sem medidas, me derramo sem cuidados. É a raiva que me faz parar. Mora, principalmente, nela a minha capacidade de ferir, por isso o recuo. Como possuo uma necessidade grande de expressar meu pensamento e quando o faço é de forma enfática, receio os possíveis danos que sou capaz de provocar nos outros e em mim. Quando alterada devido às fortes emoções, a potência da metralhadora verbal é reforçada. Então, em horas assim, prefiro silenciar, mesmo tendo o que dizer. Afastar-me se possível, até apaziguar meu coração. Deixo esfriarem os ânimos.

Se a pessoa e o fato forem importantes, quando tiver novamente posse das minhas emoções, retorno para tentar diálogo. Não é covardia. É mais estratégia. Equilibrada, consigo dizer o que quero, falar ainda mais um pouco e de maneira não ofensiva. Sem se sentir agredida, a pessoa é capaz até de ouvir o que tenho a dizer e pensar a respeito. Não é preciso fazer o que digo ou adotar meu pensamento, somente compreender meu raciocínio. O afastamento da hora específica de tensão, entretanto, possibilita um diálogo melhor. E ele consegue resultados sempre mais positivos do que as discussões.

Esse comportamento bonitinho, porém, não consigo ter sempre. É a minha meta, meu ideal, mas não a regra. Há momentos em que minha boa vontade se perde na ira. Vomito minhas verdades sem filtro. Não controlo nem o tom, nem a medida da explosão. É onde mora o risco. Quando se permite ser controlado pelo desatino pode-se tornar a situação ruim não apenas desagradável, mas sem remédio. Por isso, eu tento. Minha preocupação, confesso nada possui de altruísmo: não está no outro o meu cuidado, mas em mim. Provoca-me mal estar a sensação de ter ofendido alguém, ser responsável por sua infelicidade. Não há dignidade em comportamentos ruins.

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