Bellocchio

Vampiros italianos saem do escuro

Contraplano

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00:00 · 03.12.2016 / atualizado às 13:35 · 12.12.2016 por Diego Benevides - Crítico de cinema
Vencedor do prêmio da crítica no Festival de Veneza 2015, "Sangue do Meu Sangue" reforça apuro narrativo do cineasta italiano Marco Bellocchio

Marco Bellocchio, responsável pelos elogiados "Vincere" (2009) e "A Bela Que Dorme" (2012), ambienta seu trabalho mais recente, "Sangue do Meu Sangue", em duas épocas totalmente distintas.

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A primeira delas, que consome metade da projeção, se passa no século 17, em Bobbio, região norte da Itália, quando a jovem freira Benedetta, interpretada pela bela Lidiya Liberman, é acusada de seduzir um padre e levá-lo ao suicídio.

Para que o pároco tenha um sepultamento decente e se livre do inferno, os demais religiosos do convento fazem testes para provar que ela teria feito pacto com o diabo. Nesse meio tempo, Federico, papel de Pier Giorgio Bellocchio, irmão do padre que se matou, se envolve emocionalmente com a jovem.

Corta para os dias de hoje, quando um funcionário do governo e um bilionário russo retornam ao mesmo convento com uma proposta de compra. Lá, um velho Conde com hábitos noturnos reclama de séculos de vida que parecem estar chegando ao fim.

O roteiro, assinado pelo próprio Bellocchio, dá um arriscado salto temporal para criar representações nesses dois períodos históricos.

Se no primeiro, o cineasta volta as atenções ao recorrente tema da intolerância religiosa, o segundo mostra o lado mercenário e corrupto atuais. No meio dos dois estão as relações entre homens e mulheres, onde elas parecem ser submissas a eles e são julgadas por isso, em uma sociedade que oprime social ou politicamente.

A metáfora com o vampirismo é mais um acerto do roteiro, que trata tudo com naturalidade e não transforma este em um filme de gênero. Ainda assim, Bellocchio consegue fazer do Conde um personagem que não precisa derramar uma gota de sangue para ser assustador.

Segmentos

Os dois segmentos parecem trazer intenções que não são reveladas de imediato. Bellocchio elabora uma trama tão densa, cheia de possibilidades de leitura, que talvez seja um charme o desfecho estranho que traz para o longa.

Na direção, o italiano faz mais um trabalho efetivo de linguagem, transitando entre os dois tempos do filme com fluidez. Aos 77 anos, Bellocchio ainda mostra uma grande paixão pelo cinema, se permitindo ainda fazer escolhas de imagem e montagem para representar um discurso profundo sobre os sentimentos humanos e as relações de poder entre as pessoas. O contexto político é intrínseco a tudo que é visto em tela, desde o enquadramento humilhante de uma jovem sendo murada por ter pecado aos diálogos fajutos sobre corrupção das instituições, sejam elas religiosas ou governamentais.

"Sangue do Meu Sangue" demanda um pouco mais de disposição do público, já que a obra talvez não tenha interesse em ficar no óbvio e se utilizar de fórmulas comuns para contar sua história.

Bellocchio utiliza o que há de melhor em sua própria filmografia para se atualizar como realizador e fazer um filme misterioso e sedutor, assim como Benedetta. O cineasta convida o espectador a acompanhar a luxúria desses personagens controversos. Também mostra que a passagem do tempo não necessariamente faz uma sociedade evoluir ou se livrar das amarras fantasmagóricas do passado ou do vampirismo do presente.

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